Livro puro e são, como as aguas, como o ar, como tudo alli.
Manon Lescaut e Margarida Gauthier não entram ao santuario d'aquellas sombras, porque as flores silvestres dos vallados lhes diriam:
—Aqui não ha camelias, peccadoras. Os vossos ramos banharam-se no champagne das ceias, e crestaram-se; nós florimos banhadas no orvalho da manhã, e perpetuamo-nos. Somos pequenas e singelas. Enchemos apenas o nosso canteirinho rustico; vós encheis o mundo com a cauda roçagante dos vossos ricos vestidos. Olhae bem e procurae camelias... Não as ha. Eu sou a madre-silva, aquella é a violeta branca, aquell'outra é o malmequer. Riquezas para a pastora, que vive para colher a laranjeira! É a sua ultima flor. Não lh'a venhaes empestar com as vossas camelias, que trazem veneno como os vossos labios.
Werther tambem lá não entra, porque lhe diz o[{156}] camponez ancião, sentado á porta da cabana com o neto nos joelhos:
—Elá, poltrão! Os nossos lares são tranquillos e sagrados,—não se invadem. Eu sei que esta criança é filha de meu filho, e por isso a amo. Não conhecemos cá o desespero do amor illicito que leva á morte. Aqui vive cada um o tempo das arvores que plantou. Por isso eu tenho estes cabellos brancos, e é porque me não aborrece a vida, que os vês, ainda confundidos com os cabellos loiros d'esta criança.
O santo reitor, que serviu porventura de modelo ao evangelico personagem do primeiro livro de Julio Diniz, encontra no caminho a sombra de Voltaire, e entre sereno e austero lhe falla:
—Não ha quem te comprehenda aqui; vae-te, sabio peior que o rustico. São tudo camponezes. Nem a minha palavra rude e clara elles entendem, porque não precisam entendel-a. Deus conhecem-n'o de o vêr n'estes campos que ora fructificam, e que na primavera riem. Estão estas serranias tão habituadas ao silencio, que não encontrarias pelas quebradas echos para as tuas tempestades. Vae-te em paz, e adeus.
É preciso que os livros, na aldeia, tenham alguma coisa do chilriar dos passarinhos: que sejam candidos e bons.
Servem os Contos do tio Joaquim, porque na alma de Thomaz, o philosopho amoroso da estrella phantastica, não modilhavam só os passarinhos, a que do coração queria,—chilreava uma primavera perpetua.[{157}]
Servem os Serões da provincia, que se diriam outras tantas flores perfumadas pela alma de Julio Diniz. Não teem mau feitiço os novellos da tia Philomena, nem os versos do doutor Jacob queimam como as estrophes de Byron...