Esses livros cabem á solidão, porque é no despovoado que se rememora, e ambos elles valem hoje duas saudades redivivas.
Do rancho urbano uns lêem, outros fallam, e nenhum está triste.
Vae descendo o sol.
Passam no caminho as ceifeiras, contentes do lidar d'um dia inteiro. Na voz d'algumas canta-lhes a alma; nas faces de todas alvoreja, áquella hora do entardecer, a alegria do descanço. Metade da noite, a seroam: outra metade, dormem-n'a.
Sol nado, toca a encastelar os cestos da ceifa e da vindima, e partem cantando. No palacete de gradarias de ferro acorda ao matinal concerto uma das formosas do rancho que na vespera estava lendo A flôr d'entre o gelo. E, lembrada de ter lido n'um poeta portuense esta quadra, sorri ao primeiro raio de sol que lhe brinca nas rendas do leito, e abençoa:
Ide ceifar! Deus vos encha
Os açafates d'espigas.
Deus vos dê boa colheita,
Rapazes e raparigas.
E o serão![{158}]
As rumas de milho no meio da eira; raparigas d'um lado, rapazes do outro; a requinta a distancia. Ao longe, presentidos já pela turba, os mascarados.
Emquanto não chegam, o desafio:
—Não penses em ser esquiva,
Que se eu estender os braços,
Tu vaes ficar prisioneira
N'uma cadeia d'abraços.—Que se me dá de cadeias!
Sempre um élo é menos forte...
Cadeias que se não quebram
São as do amor e da morte.