Depois de descrever a pessoa amavel do rei, diz o cavalheiro de Grammont com referencia á sua côrte:
«Quanto a bellezas, não se podia dar um passo sem as vêr. As de maior reputação eram as d'esta mesma condessa de Castelmaine, depois duqueza de Cléveland; madame de Chesterfield, madame de Shrewsbury, mesdames Roberts, madame Middleton, mesdemoiselles Brook e cem outras da mesma formosura que brilhavam na côrte, cujo principal ornamento eram, porém, mademoiselle de Hamilton e mademoiselle Stewart.
«A nova rainha em nada augmentou o brilho do palacio, nem pela sua presença, nem pela sua comitiva. O sequito da rainha compunha-se da condessa de Panetra, na qualidade de açafata; de seis monstros, que se diziam damas de honor, e de uma aia, outro monstro, que se inculcava governanta d'estas raras beldades.
«Os homens eram: Francisco de Mello, irmão da Panetra; um certo Taurauvédez, que se appellidava D. Pedro Francisco Correo da Silva, feito ao pintar, mas só elle mais tolo do que todos os portuguezes juntos. Era mais altivo do seu nome que da sua boa figura; ora o duque de Buckingham, ainda mais tolo do que elle, e mais zombeteiro, atrambolhou-lhe a alcunha de Pierre du Bois. O pobre Correo da Silva indignou-se a tal ponto que, depois de muitas queixas inuteis e algumas ameaças sem effeito, teve que deixar a Inglaterra, ao passo que o feliz duque de Buckingham herdava d'elle uma nympha portugueza, que lhe tinha roubado, bem como dois dos seus appellidos, a qual nympha era ainda mais horrorosa que as damas da rainha. Completavam o sequito seis capellães, quatro padeiros, um perfumista judeu, e um certo official, apparentemente sem funcção, que se denominava o barbeiro da infanta (sic). Catharina de Bragança não se preoccupou de brilhar na côrte encantadora onde vinha ser rainha, se bem que mais tarde conseguisse evidenciar-se algum tanto. O cavalheiro de Grammont, desde longo tempo conhecido da familia real e da maior parte dos homens da côrte, não teve mais do que fazer conhecimento com as damas. Para isso não lhe era preciso interprete. Ellas fallavam o bastante para explicar-se, e entendiam o francez preciso para comprehenderem o que se lhes dizia.
«A côrte era sempre numerosa junto da rainha; junto da princeza era menor, comquanto fosse mais escolhida.»
Esta narração carece de rectificações.
A condessa de Panetra (por pouco que a não faz condessa de Penetra) era a condessa de Penalva, irmã de D. Francisco de Mello que fôra agraciado com os titulos de conde da Ponte e marquez de Sande.
Esta senhora morreu solteira em Inglaterra.
Francisco Corrêa da Silva era o nome do outro fidalgo portuguez roubado pelo duque inglez; Pedro é que elle se não chamava, nem tão pouco Correo.
O cavalheiro de Grammont é apenas citado a titulo de curiosidade historica, porque, de resto, limita-se a estropear o nome das pessoas e a verdade dos factos. Acha os portuguezes tolos e as portuguezas monstros. Em compensação, falla sempre de si com encarecimento.