Toda a gente tem mais ou menos ouvido contar aventuras amorosas do rei D. Miguel de Bragança. Chamo-lhe rei porque de facto, senão de direito, o foi. Escrevem falsa historia os authores de compendios que na lista dos reis portuguezes supprimem o nome de D. Miguel, por o considerarem rei intruso. Mas os tres Filippes, tambem intrusos, não deixam de apparecer em todos os compendios de historia elementar. Nós temos cá esta especie de critica, e já agora havemos de ir assim. Mas o que importa ao nosso proposito é dizer que as aventuras amorosas de D. Miguel, mais ou menos conhecidas de toda a gente, não deixam este rei n'um plano inferior aos seus collegas em absolutismo os galantes Henrique IV, Francisco I, Luiz XIV e Luiz XV. Fico por aqui para não desdobrar um estendal de nomes... estrangeiros. N'isto é que eu sou patriota.
Ha meio seculo apenas, raro principe sahia lettrado. A educação, vasada ainda tradicionalmente nos moldes medievaes, tendia a fazer d'elles mais homens do que sabios. É certo que, mesmo entre nós, D. Diniz, D. João I e D. Duarte cultivaram as lettras, mas só de passagem. E assim aconteceu até ao tempo em que floresceram os filhos d'el-rei D. João VI. Equitação, caça, jogo de armas, alguma musica, e pouco mais como prendas de educação. Ora D. Miguel foi educativamente modelado á feição e similhança dos seus antecessores. Sahiu, pois, completamente, um principe do seu tempo.
De minguadissima illustração, exhibia com pericia os dotes da sua educação physica. Era excellente cavalleiro. Os soldados, quando o viam a cavallo, ficavam enthusiasmados, e, quando a cavallo tinham de seguil-o, ficavam estropeados.
D. Miguel partia de Queluz para Lisboa au grand galop, tomando uma dianteira enorme ao esquadrão que o acompanhava. E o seu cavallo, quando elle apeava, ficava com os peitos abertos.
As mulheres, sentindo a correria doida d'um cavallo, vinham á janella para vêr passar D. Miguel, que era joven, bem posto, e rei absoluto. Rei absoluto! A personificação viva de todo o poder terreno, emanado do poder divino! Era para deslumbrar os homens, quanto mais as mulheres!
Muitas trovas populares fallam ainda hoje da belleza de D. Miguel de Bragança, conservando através dos tempos um como rescaldo do enthusiasmo popular com que o endeusavam:
O senhor D. Miguel,
Lindo diamante!
Elle já é rei
E não é infante.