«Estes vis tormentos por que fazem passar o animal e os homens constituem um espectaculo que não póde deixar de exercer sobre o povo uma influencia perniciosa; é um alimento fornecido aos seus instinctos grosseiros, ao passo que em Hespanha uma lucta ardente e generosa põe em evidencia o homem. Lá, o touro empenha toda a sua força, o homem toda a sua coragem; combatem corpo a corpo, o sangue corre, e ha commoções extraordinarias n'essa lucta; o homem não desce até ao nivel da besta, e a besta até ao nivel das coisas inanimadas. Em Hespanha, onde ha um combate, aliás leal, este divertimento popular não chega a parecer cruel; mas aqui, onde apenas se trata de uma folia baixa e ignobil, a menor desgraça avulta revoltantemente. Em Sevilha vi cahir numerosos touros, sem que homem algum fosse ferido; aqui, dois dos luctadores, encarregados de pegar o touro, ficaram horrivelmente maltratados; cahiram entre as pontas do animal que os lançou por terra, rasgando-os no ventre e no peito com temerosas marradas; finalmente, arrastaram-nos para fóra da arena todos ensanguentados e semi-mortos. Asseguraram-me, porém, que uma pouca de terra do circo, deitada n'um copo d'agua, bastaria a cural-os prodigiosamente, e que poderiam reapparecer na lide do domingo seguinte. Tudo isso me fazia horror, ao passo que em Hespanha senti-me, á vista do combate, emocionado e arrebatado.»

Mas o archiduque confessa que o divertiu muito o facto de um touro ter saltado duas vezes á trincheira, e de um outro touro ter investido com um cavalleiro, que se não desestribou, mas que no embate perdeu a cabelleira.

Então o archiduque riu francamente com o povo.

«N'esse momento, diz Maximiliano, todo o ardor hespanhol despertou em mim, e por bravos involuntarios, que não seriam talvez muito convenientes na presença da rainha, testemunhei a minha satisfação ao bravo animal, desejando-lhe um successo mais decisivo.»

Parece que Maximiliano quereria que o touro houvesse derrubado e amolgado o cavalleiro.

Como o infeliz archiduque haveria gostado, se lh'a tivessem dado a lêr, da Ultima corrida de touros em Salvaterra, de Rebello da Silva!

Aquillo é que eram touros á castelhana, no tempo do senhor D. José!

Maximiliano foi convidado para um dos grandes bailes do marquez de Vianna, n'aquella época tão faustosos. Viu ahi a primeira sociedade de Lisboa. Mas o seu exclusivismo germanico não ficou lisonjeado com os cabellos negros e as faces morenas que se estadeavam no palacio do Rato. Poucas ou nenhumas bellezas viu.

Faz justiça á opulencia das salas, que eu proprio ainda pude vêr no dia do leilão. Por isso digo que faz justiça. Mas accrescenta que denunciavam uma absoluta falta de gosto, um verdadeiro luxo de «parvenu». Ora isto não é exacto. O que seria se Maximiliano tivesse entrado em salas menos remotamente fidalgas que as do marquez de Vianna!

Á chegada do archiduque e durante o baile, o hymno austriaco lisonjeou-lhe sobremodo os ouvidos patriotas.