Impressionaram-n'o mal os mausoleos ostentosos, que se lhe afiguravam verdadeiros templos pagãos. E achou pouco christão o contraste d'estes moimentos faustosos com o systema de enterrar os pobres na valla,—como cães. As edificações arruadas do cemiterio dos Prazeres deram-lhe a impressão de um Corso funerario ou de um Boulevard dos mortos, sem caracter religioso.

Para Maximiliano, os cemiterios antigos, em cujos cyprestes e plátanos as avesinhas cantavam n'uma grande paz melancolica, eram o unico typo admissivel para necropole. Sob este ponto de vista encantaram-n'o o Campo Santo de Pisa e as sepulturas da Turquia.

Ora eu posso dar ao leitor dois traços descriptivos do Campo Santo. Fornece-m'os madame Colet, a notavel touriste que tão minuciosamente visitou a Italia: «O Campo Santo fórma um longo quadrado fechado por quatro galerias muradas exteriormente, e cobertas de frescos; interiormente, elegantes columnas cingem o recinto destinado aos mortos. Estas arcadas são de uma leveza maravilhosa, constituidas por duas finas columnas que emmolduram um pilar quadrado. A sua base assenta sobre a herva verde e cuidada; o fuste desabrocha em ogivas que recortam flôres sobre o azul do céo. Aos quatro cantos do prado elevam-se outros tantos cyprestes enormes figurando guardas taciturnos dos sepulchros. Ao meio uma roseira, opulentamente florida, balouça-se de encontro ao fuste de uma columna; sorri aos mortos como um derradeiro amigo. Comecei a minha visita entrando pela porta do occidente. Antes de examinar os frescos attentei nas sepulturas cavadas no solo que eu ia pisando: cavalleiros das cruzadas, nobres, principes, cardeaes e monges estão ahi confundidos na terra. Sarcophagos antigos descobertos nas escavações e mausoleos modernos avultam de cada lado da galeria, traçando uma especie de alêa sepulchral.»

Como se vê, o Campo Santo de Pisa não é tão despido de ornatos esculpturaes como a referencia de Maximiliano poderia fazer suppôr. Eu acho que o melhor de tudo seria adoptar a incineração, e ter cada um no seu proprio lar as cinzas dos seus mortos queridos. Os romanos davam o nome de Columbaria aos nichos, abertos nas camaras sepulchraes, onde cabiam duas urnas com cinzas, á semelhança de dois pombos em um ninho. D'aqui a origem da palavra, que poderiamos traduzir por pombaes dos mortos. Sem embargo havia tambem em Roma os sepulchros faustosos, de dois e tres andares. Mas o que da civilisação dos romanos poderiamos adoptar era o systema da incineração. Emquanto o não fazemos, o meu ideal de cemiterio é muito mais exigente em simplicidade que o ideal de Maximiliano. Ha vinte e um annos publiquei n'um poemeto infantil, que Castilho se dignou prefaciar, o bosquejo de um cemiterio verdadeiramente christão, segundo o meu ideal:

D'aldeia o cemiterio era modesto,

Sem pompa e sem lavores:

Ao centro, a cruz a dominar c'os braços

O recinto dos mortos e os espaços...

De resto... algumas flôres!

Isto, ou então os tumulos aereos da Australia, que o infeliz poeta portuense Pedro de Lima descreveu por esse tempo: