Por exemplo. A imperatriz não dispensava nunca do seu serviço de meza alguns objectos de estimação, entre os quaes havia uma pequena caixa de chá, de prata dourada, que tinha pertencido a Napoleão I. Quando este elegante objecto não apparecia alguma vez, as damas subentendiam que a imperatriz projectava uma viagem, e que mr. Bignet já tinha preparado as bagagens. Mas a caixa de chá reapparecia, e as damas ficavam sabendo que o projecto de viagem havia sido posto de parte. Bignet acompanhou a imperatriz ao exilio; e morreu em Inglaterra, inconsolavel pela queda do imperio.

Ao salão dos alabardeiros seguia-se a sala das damas, pintada a fresco sobre um fundo verde. O tecto representava uma enorme corbeille de flôres. A mobilia, estylo Luiz XVI, era de madeira dourada com estofos Gobelins. N'esta sala, como o seu nome indicava, estacionavam lendo, conversando, bordando, as damas de serviço.

Passava-se d'este a outro salão, côr de rosa, profusamente ornamentado de flôres: o tecto, representando Flora em triumpho, tinha sido pintado por Chaplin.

O salão rose communicava com o salão azul, a que já tivemos occasião de referir-nos, e cujas paredes eram revestidas pelos retratos das mais bellas damas da côrte, symbolisando as grandes nações da Europa.

Era n'este salão que a imperatriz dava audiencia, destacando-se a sua gentil figura n'uma atmosphera de saphira, que fazia lembrar o firmamento, porque a luz passava através de stores de gaze azul, adaptados ás janellas.

Seguia-se ao salão azul o gabinete da imperatriz. Era ahi que a primeira dama da França lia, escrevia, colleccionava os papeis do imperador, rodeiada de todos os objectos queridos que podiam fallar-lhe ao coração, avivar-lhe uma memoria, despertar-lhe uma saudade.

Forrado de sêda mate, com largas bandas de um verde suave, a mobilia capitonada, as cortinas côr de purpura, as portas de acajú com ferragens de cobre dourado, tal era o gabinete particular, o aposento predilecto da imperatriz.

Sobre o panno principal da parede pendia o retrato do imperador, corpo inteiro, de casaca, pintado por Cabanel. Exactissimo de semelhança. Á esquerda do fogão, um retrato da duqueza d'Alba coberto de gaze ligeira, como sorrindo através de uma nuvem. Entre as janellas, o retrato da princeza Anna Murat, pintado por Winterhalter. E por toda a parte, aqui, alli, mil obras primas do Oriente e do Occidente, uma bella estatua de mulher em marmore branco—A Estrella,—porque tinha uma estrella na fronte e, entre as recordações carinhosas, muitos objectos que tinham pertencido á duqueza d'Alba, e o chapeu, todo crivado, que o imperador levava na noite do attentado Orsini. A pintura tinha, no gabinete particular da imperatriz, um grande dominio. Havia um notavel quadro de Hébert, representando mulheres italianas n'uma fonte subterranea; e um cordão de sêda, pendente da parede, esperára durante algum tempo por um quadro de Cabanel. Mas o pintor demorára-se e, n'um dia de recepção, a imperatriz, conduzindo-o ao seu gabinete, dissera-lhe:

—Esta lacuna contraria-me. Ou me mandais depressa um quadro ou eu vos mando pendurar n'aquelle cordão,—em vez do quadro.

Cabanel tomou em consideração esta jovialidade da imperatriz, e enviou-lhe um primoroso quadro biblico,—Ruth, de tunica azul, coberto o rosto por um longo veu negro.