A imperatriz gostava muito de lêr sentada n'um fauteuil, junto do fogão e contra a luz, com os pés pousados n'uma cadeira mais baixa e inclinada.
Um biombo de sêda verde resguardava-a das correntes da luz e do ar.
Era n'esta posição que a imperatriz escrevia ordinariamente, com uma penna de pato, pondo o papel sobre os joelhos.
Ao alcance da mão havia uma pequena meza com livros, os mais queridos e, não longe, n'uma grande meza aberta, todo o trem de desenho, os pinceis, papel, caixas de tintas, porque a imperatriz tinha grande facilidade para a aguarella.
Seguia-se um outro compartimento destinado a bibliotheca, povoado de obras escolhidas na litteratura franceza, ingleza, hespanhola e italiana, linguas que a imperatriz fallava com destreza. Á mistura com os livros, muitos primores artisticos: Wouwermans de um valor incalculavel. E numerosos retratos, do conde de Montijo, do imperador, do principe imperial, da rainha da Hollanda, da rainha Sophia, etc.
Sahindo-se d'este compartimento, atravessava-se uma ante-camara sem janella, apenas illuminada por uma lampada accesa de noite e de dia. Vinha dar a esta ante-camara, que era o esconderijo dos papeis das Tulherias, a pequena escada que descia directamente para os aposentos do imperador. Todos os papeis, numerados e alphabetados, estavam ahi guardados n'um armario secreto.
D'esta ante-camara passava-se a uma vasta sala, allumiada por tres grandes janellas rasgadas sobre um balcão: era o gabinete de toilette da imperatriz, todo coberto d'espelhos. A meza de toilette tinha guarnições de renda branca e sêda azul. E do tecto descia, por um engenhoso machinismo, a que já tivemos occasião de alludir, o monte-charge que trazia os vestidos de que a imperatriz precisava.
Uma saleta com uma só janella communicava o gabinete de toilette com o quarto de cama, dividido em duas peças por um tabique em que, sobre um fundo de ouro, florejavam pinturas de delicado gosto. Era ahi que estava o oratorio particular da imperatriz, disfarçado, porque o tabique abria em dois batentes, para os actos do serviço divino. Foi n'esse oratorio que o principe imperial commungou pela primeira vez, e que, no dia 4 de setembro de 1870, a imperatriz ouviu missa, pela ultima vez, nas Tulherias.
O quarto de cama era de uma magnificencia verdadeiramente olympica. No tecto, grandes molduras douradas inquadravam antigas pinturas allegoricas. O leito, afofado de ricos estofos, e erguido sobre um estrado, era mais um throno do que um leito.
Reliquias preciosas velavam o somno da imperatriz: a rosa de ouro que lhe enviára Pio IX por occasião do baptisado do principe imperial, e o vaso, tambem de ouro, cheio de folhas e flôres do mesmo metal, finamente cinzeladas, que o Pontifice costumava offerecer aos seus afilhados de baptismo. Além de que, todos os annos, em domingo de Ramos, uma palma abençoada pelo Padre Santo vinha de Roma para o espaldar do leito da imperatriz.