Na côrte das Tulherias havia, como em todas as côrtes, um horario que apenas as grandes solemnidades officiaes faziam alterar.
Jantava-se ás sete horas e meia.
O pessoal de serviço esperava os imperadores no salão Apollo, illuminado por tres grandes lustres, que faziam reverberar o ouro do plafond,—uma glorificação de Apollo com as nove musas.
Este salão ficava entre o branco ou do primeiro Consul, assim chamado por ter um magnifico retrato do general Bonaparte, e a sala do throno, que era preciso atravessar para chegar ao salão de Luiz XIV,—a sala da meza.
Pouco depois das sete horas, o imperador subia aos aposentos da imperatriz, e desciam ambos ao salão de Apollo com o principe imperial, que tinha lugar á meza do estado desde os oito annos. A imperatriz dava ordinariamente a mão ao principe. Entrando no salão, a imperatriz cumprimentava com um sorriso e uma mezura as pessoas da côrte, como n'uma ceremonia official. Logo que o mordomo do palacio se inclinava silenciosamente diante do imperador, annunciando o jantar, o imperador, dando o braço á imperatriz, dirigia-se para a sala de Luiz XIV, e os dignitarios da côrte davam o braço ás damas, seguindo-o.
O imperador e a imperatriz sentavam-se á meza, junto um do outro. O principe imperial á esquerda do imperador, o ajudante de campo do imperador á direita da imperatriz, a primeira dama de serviço ao pé do principe imperial, a segunda dama á direita do general Rolin, seguindo-se os outros commensaes, entre elles os officiaes da guarda das Tulherias.
Por detraz da cadeira do imperador e do principe imperial postava-se um alabardeiro. Por detraz da cadeira da imperatriz, além de mr. Bignet, commandante da sua guarda, ficava Scander, um joven negro, que tinha vindo do Egypto, e que, emplumado e armado, produzia um bello effeito decorativo.
Scander tinha um grande orgulho da sua posição, e não obedecia a ninguem senão á imperatriz.
Um dia passeava elle no Jardim das Tulherias, e lembrou-se de macaquear os gestos e meneios de um desconhecido qualquer, que, não gostando da parodia, o admoestou. Mas Scander respondeu-lhe com um pontapé, e o desconhecido, filando-o por uma orelha, desancou-o com a bengala.
Furioso, mas poltrão, Scander gritava: