—Deixe-me, que eu sou o filho da imperatriz...
O serviço da cosinha era feito por meio de ascensores, e executado com grande regularidade e presteza.
O salão de Luiz XIV tinha uma grande meza, e ao fundo, sobre o fogão, um busto monumental d'aquelle soberano, além de um retrato do mesmo rei, pintado por Lebrun, de um retrato de Anna d'Austria, e de um quadro representando a apresentação do duque de Anjou aos embaixadores hespanhoes.
Depois do jantar, os imperadores dirigiam-se com a sua entourage para o salão d'Apollo, onde se servia o café, que Napoleão III tomava sem sentar-se fumando cigarrilhas.
Era geralmente n'esta occasião que o imperador conversava com os officiaes da guarda. Toda a côrte se conservava tambem de pé, mas o imperador convidava quasi sempre as damas a sentarem-se. Fazia-se então circulo, fallava-se principalmente dos acontecimentos do dia, o marquez de Havrincourt, o barão de Pieres, o duque de Trévise, dignitarios da côrte e deputados, commentavam os episodios da sessão do dia. A imperatriz era a alma, a alegria, a graça d'este circulo de conversação. O imperador acabava por fazer paciencias, e, para entreter o principe imperial, a côrte jogava algumas vezes o loto, marcando o imperador os seus cartões com moedas de 50 centimes, novas em folha.
Oh! ceus! quem havia de dizer, nos tempos aureos do imperio de Napoleão III, que os pamphletarios descreviam como nadando nos prazeres de uma orgia ininterrupta, que ás nove horas da noite, no salão Apollo das Tulherias, estava a côrte, os imperadores á frente, entregando-se paradisiacamente ao patriarchal loto, como a essa mesma hora acontecia decerto, em Portugal, na botica de Castro Daire e no club de Olhão!
Ás dez horas os creados punham, n'uma pequena meza, o serviço de chá, que as damas faziam. Madame Carette escreve textualmente: «Havia um bulle de chá de laranjeira que tinha um grande successo entre os homens, e n'um canto do salão um plateau com refrescos e café gelado. Geralmente o imperador retirava-se depois de ter tomado uma chavena de chá.»
Então a conversação animava-se mais, estimulada pela imperatriz, que a prolongava até ás onze e meia.
Os adversarios do imperio atacaram vivamente as festas das Tulherias, os quadros vivos de Compiégne; aqui tenho eu ao pé de mim Philibert Audebrand, que me diz ao ouvido, applicando-a a Nopoleão III, a celebre phrase de Agnés Sorel a Carlos VII:
—Não se perde mais alegremente um reino!