Mas, fóra das grandes festas, não me parece que o loto das Tulherias, marcados os algarismos com moedas de 50 centimes, seja babylonicamente escandaloso. Um certo conego conheci eu em Braga que, sem ter um throno na Sé, marcava os seus cartões com peças de 8$000 reis, e este mesmo conego tambem não desgostava de quadros vivos porque o vi, passados annos, assistir no Porto a um espectaculo de lanterna magica, realisado pelo Tasso (não confundir com o poeta nem com o actor) no theatro de S. João.
E o que aconteceu?
O conego—Deus o tenha lá!—morreu muito bem descançado na sua conezia. As gazetas nunca fallaram d'elle senão para lhe rezar uma necrologia louvaminheira. Mas Napoleão III perdeu a corôa, o que não aconteceu ao conego, foi descomposto pelas gazetas, crivado de epigrammas, e acabou no exilio.
Quanto a epigrammas, até os proprios parentes lh'os faziam. Lembro-me agora de um, que é do marido da princeza Clotilde, mais conhecido por uma alcunha grotesca.
Na noite do seu casamento com a condessa de Teba, disse-lhe Napoleão III que estava muito constipado.
O primo respondeu-lhe:
—Couche-toi avec tes bas (Tebá) cette nuit, et ça passera.
Foi talvez o unico epigramma que não soube mal a Napoleão III...
IV
Conhece-se, nos seus pormenores, a desastrosa morte do filho da imperatriz Eugenia na Zululandia. Foi esse acontecimento que desfolhou no coração da viuva de Napoleão III o ultimo bouquet das suas esperanças, que ella podéra salvar na revolução de 4 de setembro. Restava-lhe apenas, a prendel-a ao mundo e a ligal-a ao futuro, esse joven principe que sempre adorou, e que bem poderia vir a rehaver um dia o throno dos Napoleões. O desejo de apressar a hora da revanche napoleonica, um sonho de mulher n'uma noite agitada, preparára, com mais precipitação do que acerto, a partida do principe Luiz para a Zululandia. Contou decerto a imperatriz com o effeito vantajoso que poderia despertar no animo enthusiasta dos francezes a noticia de que seu filho se havia batido com denodo, embora por um paiz estranho; e depois, como a Zululandia não estava precisamente na fronteira da França, mas era uma região longinqua da Africa, seria possivel exaggerar um pouco hyperbolicamente os triumphos do principe, sobredoiral-os com o prestigio que a distancia costuma dar ás pessoas e aos factos.