Uma das ultimas novidades litterarias, que lograram maior successo, é com certeza o livro de Paul Gaulot: Rêve d'empire.
Este livro occupa-se da famosa questão do Mexico, o ephemero imperio de Maximiliano, e basêa-se em documentos inéditos. D'aqui o seu principal interesse: um clarão de revelações, importantes e novas, illumina as trezentas paginas d'esta brochura que tem já terceira edição, comquanto haja apparecido ha poucos dias.
Envolvia-se até hoje nas sombras de um tal ou qual mysterio a causa da intervenção da França na questão do Mexico.
Presumia-se que Napoleão III tivera em vista dar um golpe mortal nos Estados-Unidos, mas o que não passava de uma hypothese adquire agora, graças ao livro de Paul Gaulot, fóros de certeza.
É comtudo certo que, apesar de conhecida, a intervenção de Napoleão III, a intervenção da França na questão do Mexico não perde completamente o caracter de uma aventura perigosa, e um pouco phantasista.
Conta-se que n'um serão das Tulherias, em 1868 ou 1869, a familia imperial passára a noite jogando aux petits papiers. N'um dos papelinhos, que coube em sorte ao imperador, lia-se a seguinte pergunta: «Qual é a vossa occupação favorita?» Napoleão III respondeu: «Procurar a solução de problemas insoluveis».
Esta phrase define até certo ponto o espirito do imperador dos francezes, sempre propenso á aventura, sempre enthusiasta de emprezas arrojadas ou, se antes querem, um pouco visionario na politica.
Girando em torno da phrase escripta por Napoleão III, Paul Gaulot lembra que na sua mocidade o futuro imperador dos francezes fôra filiar-se nas sociedades secretas d'Italia; que, sendo elle o representante da idéa napoleonica, isto é, do principio d'authoridade, duas vezes tentou derrubar o regimen estabelecido; que, subindo ao throno, deteve a acção da Russia no Mar Negro e no Mediterraneo, sem comtudo querer que a Inglaterra ficasse senhora d'esses mares; que combateu a Austria para permittir á Italia que realisasse a sua unidade, impedindo-a porém de attingir este ideal politico porque elle proprio protegia a conservação dos Estados da Igreja; que, finalmente, se lançou na expedição do Mexico para contrariar os Estados-Unidos, sem todavia querer declarar a guerra a esta potencia; que, nos ultimos annos do seu reinado, tentou unir ao regimen imperial o regimen parlamentar, abrindo pessoalmente uma brecha na cidadella que tinha construido desde 1848.
Estes sonhos ousados, e por vezes contradictorios, constituiam o caracter phantasista de Napoleão III. Como elle mesmo disse, o seu destino parecia consistir em procurar a solução de problemas insoluveis.
«O pensamento que guiou Napoleão III no negocio do Mexico, diz Paul Gaulot, era grande, generoso e politico.»