Foi leal o conselho de Bazaine? Tudo faz acreditar que não foi. Elle contava com o effeito seguro d'essa lei sanguinolenta. De facto, no 1.º de setembro de 1865, descobriu-se uma conspiração contra Maximiliano. Um dos cabeças da conspiração era o general Uraga, ajudante do imperador. Quinhentas pessoas foram presas, o corpo de dragões da imperatriz dissolvido, e Bazaine convidado a occupar militarmente o palacio imperial.
Que triste realeza a de Maximiliano, rodeiado de bayonetas no seu proprio palacio!
Coincidiu com este deploravel estado de coisas o termo da occupação franceza. Tres annos haviam passado. Napoleão III, que principiára a medir todo o alcance d'essa louca aventura do Mexico, procurava um pretexto desleal para mandar retirar a expedição franceza. Os Estados-Unidos deram-lhe o pretexto. E Maximiliano, vendo-se perdido, enviou á Europa, a implorar a protecção de Napoleão III, a imperatriz Carlota.
Foi em agosto de 1866 que a desventurosa imperatriz chegou a Saint-Cloud. Os imperadores vieram recebel-a ao fundo da escada, com esse requinte de cortezia palaciana cuja intenção nem sempre é sincera. Feitos rapidamente os cumprimentos do estylo, o imperador e as duas imperatrizes encerraram-se em conferencia n'um gabinete particular.
Oiçamos agora o testemunho insuspeito de madame Carette:
«A imperatriz do Mexico, que contava então apenas vinte e seis annos, denunciava longas angustias, profundas inquietações. Alta, de um porte elegante e nobre, o rosto redondo, os olhos negros e salientes, as feições graciosas, a imperatriz trajava um longo vestido de sêda preta, ainda vincado das dobras da mala em que fôra acondicionado durante a viagem e de que fôra tirado á pressa, sem ter havido tempo de o arejar; um mantelete de rendas pretas, e um chapeu branco muito enfeitado, que tinha sido comprado n'essa manhã em casa de uma das primeiras modistas. O calor era n'esse dia asphyxiante, e fôsse por effeito do longo trajecto em carruagem, ao sol, desde Paris a Saint-Cloud ou por effeito das commoções que a agitavam, as faces da imperatriz estávam vivamente rosadas.
«Acompanhavam-n'a duas damas de honor, mexicanas, muito feias, morenas, pequenas e desgraciosas, que fallavam o francez com difficuldade. Ao passo que os soberanos conferenciavam largamente e sem testemunhas, esforçavamo-nos por entreter estas duas estrangeiras, que pareciam muito perturbadas. Eu consegui trocar algumas phrases com uma d'ellas, e, para matar o tempo, offerecemos-lhes alguns refrescos.
«A dama mexicana pediu-me que mandasse uma laranjada á imperatriz Carlota, que, segundo me disse, costumava, áquella hora, tomar esse refresco. Dei immediatamente ordem na ucharia para que servissem a laranjada. A imperatriz Eugenia, contrariada com a entrada do criado, perguntou quem lhe tinha dado a ordem. Respondeu que fôra eu, e foi a propria imperatriz Eugenia que serviu a laranjada á imperatriz Carlota, tendo que insistir para que a tomasse, porque a imperatriz do Mexico parecia hesitar.»
Duas horas durou essa entrevista dos tres personagens. Não valeram razões, supplicas, rogos. O imperador Napoleão fôra de pedra, elle, o inventor do imperio do Mexico, elle, a serpente que tentára Maximiliano!
Carlota sahiu de Saint-Cloud pedindo á imperatriz que ao menos interpozesse o seu valimento para demover Maximiliano a sahir do Mexico.