E Henrique VIII, como cada vez estivesse mais namorado de Anna Boleyn, chamou os duques de Norfolk e Suffolk, e outros grandes senhores do reino, para que no dia seguinte, quando os dois cardeaes se reunissem, lhes dissessem da sua parte que não queria que dessem sentença.

Os duques e os outros grandes senhores cumpriram a ordem do rei, e os cardeaes não ousaram dar a sentença, indo o de Wolsey lançar-se de joelhos aos pés de Henrique VIII para que lhe perdoasse e o deixasse sahir incolume da côrte.

Ora o rei, apesar do que se tinha passado, dissera em segredo a Anna Boleyn que estivesse certa de que elle a havia de desposar e fazer coroar rainha.

Despedindo o cardeal Campeggio, Henrique VIII fez-lhe saber que estava resolvido a não reconhecer por mais tempo a auctoridade do bispo de Roma, e logo, reunindo o seu conselho, communicára-lhe esta resolução, bem como a de desposar Anna Boleyn.

Foi resolvido que se convocassem côrtes.

Mas, para não perder tempo, o rei Henrique, que estava então em Greenwich com a rainha, ordenou que Catharina de Aragão partisse sem demora para Kimbolton, a vinte e seis leguas da côrte, sahindo elle proprio para Richmond.

A pobre Catharina de Aragão partiu com os seus fieis criados, e o rei casou em Richmond com Anna Boleyn, sendo celebrante o arcebispo de Cantorbery.

O rei Henrique teimára em passar através de todas as difficuldades.

Uma d'ellas suggeriu-lh'a a propria mãi de Anna Boleyn, filha do duque de Norfolk, que lhe pedira reflectisse no que ia fazer.

—Porque, disse a mãi de Anna, se vossa magestade examinar bem a sua consciencia, ha de achar que minha filha tambem é sua filha.