Mas o rei não achou nada.
Henrique VIII, voltando a Greenwich, mandou dizer á cidade de Londres que passaria n'aquella cidade para ir a Westminster coroar a nova rainha, e Londres apercebeu-se pomposamente para receber o rei Henrique e a rainha Anna.
Tres dias depois, Henrique VIII embarcou com Anna Boleyn no bergantim real, seguido de uma flotilha flammante, sendo saudado tão estrondosamente pela artilheria, que não ficou n'aquelle dia vidraça inteira desde Greenwich até Londres.
O rei e a rainha pernoitaram na Torre e, no dia seguinte, Henrique VIII foi no bergantim real para Westminster, sahindo pouco depois Anna Boleyn com igual destino, n'umas andas descobertas, precedida de toda a cavallaria e de gentishomens e damas em hacaneas e coches.
Anna Boleyn levava um vestido de brocado carmezim constellado de pedraria, no collo um collar de perolas maiores do que amendoas, na cabeça uma grinalda á maneira de corôa, e nas mãos um bouquet de flôres raras e bellas.
Na rua de Cheapside havia um arco triumphal, no sitio onde a cidade costuma dar aos reis que vão coroar-se mil libras sterlinas, que lhes são entregues por um anjo que desce do arco.
A rainha Anna recebeu a bolsa com o dinheiro, e guardou-a. Logo o povo, que se lembrava de que a rainha Catharina havia mandado distribuir igual quantia, quando lh'a deram, pelos alabardeiros e lacaios, ficou ainda mais desconfiado do que estivera até ahi, dizendo com os seus botões que aquillo era outra loiça de rainha.
Á porta de Westminster, o rei Henrique VIII esperava a rainha Anna, e, dirigindo-se todos para o templo, foi a rainha coroada, havendo durante oito dias grandes justas e torneios, coisa espantosa de se vêr.
Ora o parlamento confirmou tudo quanto o rei havia feito: ratificou o casamento com Anna Boleyn, jurou a legitimidade da successão que d'elle resultasse, reconheceu a Henrique VIII o titulo e o poder espiritual de chefe supremo de igreja anglicana, e outorgou-lhe os rendimentos outr'ora destinados ao thesouro pontificio.
Como alguns catholicos permanecessem firmes na sua antiga crença, e não quizessem jurar, foram presos e executados: entre outros João Fisher, bispo de Rochester, e o chanceller e escriptor Thomaz Moore, a quem Erasmo dedicou o Elogio da loucura, e que fôra, junto de Henrique VIII, o successor do cardeal de Wolsey.