Tambem quiz o rei obrigar a rainha Catharina e os seus fieis criados a reconheceram por juramento Anna Boleyn como rainha, e elle como chefe da igreja anglicana. Catharina de Aragão recusou-se dignamente, mas não queria sacrificar os criados. Elles limitaram-se a jurar que o rei se tinha feito cabeça da igreja, negando-se porém terminantemente a reconhecer Anna Boleyn como rainha de Inglaterra.

Roma fulminára terriveis excommunhões contra Henrique VIII. Paulo III, como já havia feito Clemente VII, anathematisára o rei de Inglaterra, citando-o a comparecer perante o tribunal de Roma.

Mas o rei Henrique fez ouvidos de mercador, e ordenou que a filha de Anna Boleyn, que veio depois a reinar com o nome de Izabel e o cognome de Virgem (que virgem!) fosse jurada princeza de Galles, sendo declarada bastarda madama Maria, que tambem foi rainha, filha de Catharina de Aragão.

Desde que na rua de Cheapside a rainha Anna tinha arrecadado a bolsa com as mil libras sterlinas, que lhe dera a cidade de Londres, ficou-se sabendo que, na balança do seu coração, o amor ao rei não pesava mais do que o amor ao dinheiro.

Assim foi que ella cobiçou a corda e as joias que pertenciam á rainha Catharina.

Ora a rainha Catharina podia, como a condessa de Chateaubriand, quando Francisco I lhe pediu todas as joias para as dar a Anna de Pisseleu, tel-as mandado derreter no fogo. Mas não fez assim, devolveu-as honradamente, com excepção da corôa, porque estava guardada da mão de lord Rutland, que não a quiz entregar emquanto a rainha Catharina foi viva.

Lord Rutland é o Martim de Freitas inglez.

Mas aquelle e outros golpes acabaram por dilacerar o coração atormentado da boa rainha Catharina, cujos padecimentos se aggravaram mortalmente.

No seu leito de agonia escreveu ao rei uma carta, que o abbade Millot com razão classifica de lettre touchante, mas que nós, graças á chronica hespanhola de Julian de Pliego, tão sabiamente annotada pelo marquez de Molins, podêmos reproduzir na integra:

«Senhor meu e rei meu e marido amantissimo: