É costume portuguez dizer-se por graciosidade ou disfarce, segundo a idade da pessoa com quem estamos fallando, que as creanças recemnascidas vieram de França.

Os loiros babys, que aguardam impacientemente a chegada de mais um irmão pequenino, contentam-se ingenuamente com a resposta que lhes damos—de que o menino viera de França—e, annos volvidos, quando a malicia do mundo lhes revelou o segredo da procreação da especie humana, elles mesmos continuam a tradição dizendo por sua vez aos filhos curiosos—que viera tambem de França aquelle lindo menino, que lhes offerecem para irmão.

Mas... ó triste idade a nossa, em que já se não acredita em quasi nada, e muito menos em meninos que vêm de França!... mas por que razão se escolheu a França como paiz ideal de onde todos os meninos portuguezes são oriundos! A phrase ficou lendaria entre nós, a tradição subsiste com a mesma intensidade, com ella ludibriaram a nossa curiosidade infantil, e com ella, por nossa vez, respondemos á pergunta, por igual curiosa, de nossos filhos.

Não haveria um facto historico que determinasse a origem d'esta tradição? Aposto que o leitor nunca pensou n'isto! Nunca! É celebre! Tanto mais celebre, se é certo que já alguma vez encommendou para França meninos recemnascidos.

Pois, verdade, verdade, eu nunca tinha pensado tambem, e não o pensaria jámais, se o licenciado Duarte Nunes de Leão, nas suas chronicas de reis portuguezes, especialmente na de Affonso III, não tivesse chamado a minha attenção para uma antiga lenda portugueza, que bem póde ter dado origem á tradição de que é de França que chegam os meninos recemnascidos.

É possivel que eu esteja em erro, mas como isso não prejudica os meninos, nem os pais, e menos ainda a França, afoito-me a emittir uma opinião, que as academias talvez ingratamente repillam, mas que não deixará comtudo de ter uma tal ou qual apparencia de verosimilhança.

Posto este brevissimo exordio, entremos no assumpto, quero dizer na chronica de Duarte Nunes.

Depois de ter contado como o infante D. Affonso casára em França com a condessa Mathilde de Bolonha, viuva de Filippe o Crespo, e como, sendo acclamado rei de Portugal, a repudiára para desposar a filha do rei de Castella, empenha-se Duarte Nunes em demonstrar, por documentos authenticos, que a condessa de Bolonha não houvera filhos de D. Affonso de Portugal.

A dissertação do chronista tem por fim rebater uma lenda, que se enraizára entre o povo portuguez, e sobre a qual assenta a hypothese que eu pretendo formular.

Escreve, pois, o historiador: