«... resta satisfazer ás fabulas da gente popular, que ficaram por historia de mão em mão, e que o chronista Fernão Lopes conta na vida do dito rei, não sabendo o que seguisse, nem o que fugisse, por a pouca informação que d'aquelles tempos rudes pôde alcançar, e por o pouco discurso que elle n'isso podia fazer por falta de noticia das historias estrangeiras. Primeiramente diz que passados alguns annos depois de o infante D. Affonso partir de Bolonha, soube a condessa sua mulher como el-rei D. Sancho era fallecido, e o conde D. Affonso seu marido levantado por rei. E que não sabendo ser elle casado, armou uma frota, em que veiu a este reino. E que aportando a Cascaes, soube do casamento de seu marido com a filha d'el-rei de Castella, e estar com ella recreando-se na aldeia de Friellas, termo de Lisboa. E que fazendo-lhe saber de sua vinda, e requerendo-lhe a recebesse a ella, e se apartasse d'aquella mulher, com que estava em peccado, el-rei lhe mandou que se fôsse fóra de seu reino. Contam mais que a condessa se tornou para França, deixando-lhe um filho que trazia, segundo a opinião de alguns; e outros diziam que o tornou a levar, e de lá o mandou depois a Portugal.»

Aqui é que bate o ponto.

O facto era importante como questão politica: tratava-se da successão á corôa. Uns davam razão ao rei; outros á condessa de Bolonha. E discutia-se a hypothese de existir um filho do primeiro casamento de D. Affonso III; fallava-se muito de um menino que viera de França.

Duarte Nunes de Leão trata de desmentir a lenda com documentos e razões chronologicas. Mas a lenda enraizou-se e floresceu em Portugal, a ponto de sobreviver ao menino que viera de França, e que teria morrido de morte natural ou violenta.

O povo, pelo que se infere de Duarte Nunes, acreditava que o menino estava sepultado na igreja de S. Domingos.

Diz a chronica:

«E para que a gente vulgar, que não se move tanto por razões, quanto pelos sentidos de vista e ouvida, se satisfaça, é necessario declarar-se que sepultura era a de S. Domingos de Lisboa, em que havia fama no povo que estava enterrado um menino filho da condessa Mathilde e d'el-rei D. Affonso seu marido, que diziam que era o que trouxera comsigo ou mandára de França

Duarte Nunes viu a sepultura, e descreve-a. A caixa era de marmore branco, com varios ornatos esculpidos á roda, figurando arvoredo e montaria de porcos e cães. As lettras do epitaphio eram gothicas. Mas as dimensões da sepultura denunciavam o cadaver de um adulto, não de um moço de pouca idade. Vinte annos antes de Duarte Nunes escrever a chronica de D. Affonso III, querendo o prior de S. Domingos «despejar o cruzeiro (onde a sepultura estava) ou por não lêr aquellas lettras, porque constava jazer alli um filho do rei, que fundou aquella casa, ou por cuidar que seria algum menino», abriu-se a sepultura e achou-se um corpo incorrupto, sanissimo, diz o chronista, reconhecendo-se que era de homem grosso. Os ossos foram trasladados para outra sepultura, proxima á capella de Santo André.

«De maneira, escreve o chronista, que a fama de alli estar um menino filho de Mathilde, era falsa e vã, e era certo estar alli o infante D. Affonso, irmão inteiro d'el-rei D. Diniz, que morreu de grande idade com muitos filhos e netos.»

Como se vê, a lenda do menino que viera de França generalisou-se entre o povo portuguez, e atravessou os seculos sem perder uma parcella da sua popularidade. O proprio prior de S. Domingos, que devia ser homem ilustrado, teve duvidas, e só se desenganou depois de ter mandado abrir a sepultura.