A lenda cahiria então em algum descredito, que aliás não foi completo, como logo veremos, mas, a locução, havendo-se tornado tradicional, permaneceria, chegando até nós. Para de algum modo satisfazer á curiosidade ingenua das creanças, dir-lhes-iam que todos os meninos vinham de França, como o da lenda. E assim o phenomeno physiologico da maternidade ficaria na imaginação das creanças envolvido no mesmo mysterio, que pesou sobre o nascimento de um filho de D. Affonso III e da condessa de Bolonha até ao dia em que na igreja de S. Domingos foi aberta a respectiva sepultura.

E quantos espiritos populares não passaram d'esta para outra vida com a convicção de que effectivamente um menino, filho do rei portuguez, viera de França, por ordem de sua mãi! Similhantemente, os espiritos infantis dos loiros babys acreditam ingenuamente que os seus irmãos pequeninos, como elles proprios, vieram de França por ordem de sua mãi e... de seu pai. A differença, que é insignificante, está apenas na parceria da encommenda.

O menino de S. Domingos era um mysterio, um segredo, como aquelle que para as credulas creaturinhas deve envolver o facto da gestação e do nascimento, em toda a sua verdade physiologica.

Com o reconhecimento do cadaver desfez-se o mysterio, mas a lenda subsistiu conservando a locução, tanto mais que ficou a perpetuar a lenda um monumento em que a imaginação popular a materialisou.

Sabe o leitor que monumento é esse? Não sabe, decerto. São alguns rochedos que afloram do mar na barra de Lisboa.

Dil-o Duarte Nunes:

«E para que não fique coisa a que se não responda, outra historia como esta andava entre as velhas, e gente popular, porque contavam que quando a condessa veiu a Cascaes e foi desenganada d'el-rei seu marido, que a não havia de recolher, tornando-se para França, estando já para dar á vela, lhe deixou dois filhos, dizendo que dissessem a el-rei que tomasse lá seus cachopos, e que por isso se chamou Cachopos áquelle lugar do mar, onde os deixou, não entendendo aquella gente vulgar que cachopos é palavra portugueza de homens rusticos, por que chamam aos moços de pouca idade, e que a condessa Mathilde, franceza da Gallia Belgica, não podia fallar por aquelles termos da lingua portugueza, que não sabia, e que aquelle lugar da barra de Lisboa, de penedia e bancos, que vão por debaixo da agua, onde as naus perigam, se diz cachopos, corrupto o vocabulo latino scopulus, como se corromperam pela successão dos godos e dos mouros outros infinitos vocabulos, que temos da lingua latina, d'onde a nossa tem a origem. Isto é coisa de graça...»

Graciosos na sua elegante singeleza são tambem este e os outros relanços da chronica de Duarte Nunes.

Não sei se o leitor ficará inclinado a acreditar que a lenda do menino de S. Domingos haja dado origem á locução proverbial de que os meninos recemnascidos vêm de França.

Se não ficar, releve-me a innocentissima conjectura pelo prazer que decerto lhe deram as transcripções que fui buscar a Duarte Nunes e que, aproveitando-lhe a phrase, diga complacentemente com o chronista: Isto é coisa de graça.[[9]]