Houve tempo em que o urso completou o elenco da troupe animal do Gerez, mas desde que os pastores pensaram em afugental-o com o clarão sinistro das fogueiras para esse fim accesas durante a noite, o urso, a datar do seculo XVII, fugiu para não mais voltar.

Toda a serra está povoada de lendas supersticiosas guardadas, de seculo para seculo, pela inviolabilidade das suas proprias florestas, e pelo estranho caracter da sua flora e da sua fauna, ainda hoje defendidas pelos sete sêllos de um segredo por igual inviolavel.

Está por acaso estudada a flora do Gerez em todos os arcanos da sua vegetação luxuriante? Não está decerto. Pois o mesmo acontece com relação a essa outra flora, deixem-me assim dizer, das tradições ou das lendas locaes, de que apenas se conhece vagamente um ou outro specimen.

Sobre o penedo da Santa raros olhos terão visto impressos na rocha os vestigios que os serranos contam ser os dos joelhos e pés de Santa Eufemia, que alli vivêra vida eremitica, quando andava fugida á perseguição de seu pai, governador romano da cidade de Braga.

N'um valle de Covide poucas pessoas terão examinado um eito de pedras lavradas, que lá denominam fileiras, e que, segundo a tradição local, foram alli collocadas de proposito para obstar a que os ursos atacassem as colmêas, porque os ursos usavam abraçar-se aos cortiços, rolal-os até encontrarem agua e ahi, afogando as abelhas, comer tranquillamente o mel dos favos.

Por onde se vê que é injusto chamar urso a um individuo pouco esperto.

Mas todas estas tradições, de que ha memoria escripta, são em tão pequeno numero, que bem se póde presumir que o Folk-lore da serra do Gerez está apenas prefaciado por dois ou tres dos nossos chorógraphos.

D'esta quasi absoluta ignorancia em que todos vivemos a respeito da ethnographia das nossas provincias mais sertanejas e remotas, resulta a surpreza com que o paiz está lendo as descripções da viagem da familia real através do Alto Minho, e da sua excursão venatoria na serra do Gerez.

Todo o bom lisboeta, mesmo aquelle que por engano costuma dar excellencia ao rei, ficou hilariantemente surprehendido de que um montanhez minhoto saudasse o snr. D. Luiz dando vivas ao reverendo snr. rei, que é um bom homem.

N'aquellas regiões alpestres, onde a pureza dos costumes é ante-diluviana, ainda o ser bom constitue o supremo elogio de quaesquer homens, incluindo os reis.