Em Lisboa, na baixa ou na alta, tanto monta ser bom como ser mau. Mas no Gerez a ignorancia de formalismos e pragmaticas é tão profunda como a ignorancia de tudo o mais.
Riram-se poetas alfacinhas de que as camponezas de Lago ensoassem em honra d'el-rei uma trova de toantes gallaicas, ao sabor dos primeiros monumentos da litteratura portugueza:
Vamos, vamos depressa,
Corramos p'r'a varanda,
Vêr o rei de Portugal,
Que vai para a caçada.
Mas é que os parnasianos de Lisboa esqueceram, para rir, as memorias historicas do passado e as condições autochtones d'essa especie de bascos da Lusitania, chamados minhotos.
Lembrassem-se elles do seu Frei Luiz de Souza e da pagina que rememora a visita de Frei Bartholomeu dos Martyres á serra de Barroso.
«Correu a voz, pela serra—diz o classico dominicano—da vinda do arcebispo. Abalou-se toda; foi o alvoroço e alegria sem medida. Juntavam-se a recebel-o pelos caminhos com suas danças e folias rudes, que era o extremo da festa que podiam fazer. E, porque não fossem julgados por menos agrestes que os seus mattos, nas cantigas, que entoavam entre as voltas e saltos dos bailes, publicaram logo a quanto chegava o que sabiam do ceu e da fé. Um dizia assim: Benta seja a santa Trindade, irmã de Nossa Senhora.»
Chamar á Santissima Trindade irmã de Nossa Senhora não é menor desacerto do que chamar reverendo ao rei.