Mas tudo isto denuncía que entre Frei Bartholomeu dos Martyres e o arcebispo D. Antonio Honorato o Alto Minho tem continuado a dormir, sobre as coisas da religião como sobre tudo o mais, e que, surprehendido pelos foguetes dos ultimos dias, accordou estrenoitado, confundindo a personificação do primeiro poder do estado com o maior poder que o serrano minhoto tem conhecido até hoje: o clero.
Porque a verdade é que justiças de el-rei não são conhecidas no Alto Minho, nem lá chega a irradiação constitucional do grande foco da administração publica chamado governo.
Não se lembram do livro de D. Antonio da Costa, intitulado No Minho? Pois elle lá descreve a communa de S. Miguel de Entre os Rios, que ao nascente prende com o Gerez e ao norte com o Suajo.
A freguezia está dividida em cantões, governados por um juiz que os habitantes elegem d'entre si. O povo entrega ao juiz a carrapita (o busio), e quando o juiz entende que é preciso reunir assembléa geral, para tomar qualquer deliberação, convoca o povo tocando o busio.
Então, de todas as casas principiam a sahir os homens vestidos de burel, com calções, polainas e barrete, as mulheres vestidas de lã, colletes curtos, cabello cortado, lenço de linho na cabeça, e, assim reunida a communa, resolve, como outr'ora faziam os lusitanos e como ainda hoje costumam fazer os bascos, representantes dos primitivos iberos.
Eu digo francamente que, se não existisse o Gerez, teria sido conveniente invental-o, a fim de que el-rei o podesse visitar; como Potemkin inventou, para illudir Catharina II, panoramas phantasticos ao longo das desoladas steppes da Russia.
Fizessem muito embora um Gerez de lona, comtanto que o povoassem com os bons serranos do Minho, que fallam ao rei com o coração nas mãos calosas, ao contrario dos cortezãos de Lisboa, que fallam ao rei com o coração nos giolhos postos em terra.
Os de lá curvam-se ao snr. D. Luiz como se curvavam ao arcebispo D. Frei Bartholomeu dos Martyres, cheios de sincera reverencia e de humildade respeitosa. Os de cá curvam-se para que as dadivas do rei lhes possam acertar mais facilmente nas mãos abertas. A distancia moral não é menor do que a que geographicamente existe entre o Gerez e Lisboa.
O rei tem agora visto o que talvez ignorava,—que ha homens bons no Alto Minho, de uma innocencia paradisiaca, que se governam sem incommodar o governo, e que cantam lôas á realeza sem rima, mas tambem sem interesse.
D'isto só no Gerez!