«Está constantemente balouçando uma almofada e pergunta ás pessoas que a rodeiam se o novo Kronprinz é bonito. Depois cae em grande prostração, parecendo de tempos a tempos melhorar para propôr um novo casamento ao imperador.»
Ha nas ultimas linhas d'esta noticia o que quer que seja que faz passar vagamente pelo nosso espirito essa flebil melodia de Meyerbeer, chamada a valsa da sombra, da Dinorah.
A bella camponeza de Ploermel, julgando que Hoel a abandonára, perde a razão e, faltando-lhe a sua cabrinha branca, unica companhia que lhe restava no mundo, procura-a por entre as moitas floridas até que, suppondo havel-a encontrado, faz menção de acalental-a nos braços, chorando e cantando, n'uma loucura ternissima, emquanto o luar cae do ceu n'uma tristeza saudosa.
Assim a imperatriz da Austria, balouçando a almofada em que imagina vêr adormecido o Kronprinz, que uma catastrophe fulminára, parece cantar, no silencio concentrado d'uma loucura melancolica, a ombra leggiera do filho querido que não mais voltará.
A valsa de Meyerbeer passa certamente soluçando no coração da louca imperatriz.
De mais a mais ella teve sempre o culto da musica, foi a imperatriz que poz em moda, tanto em Pesth como em Vienna, a zither, a dôce guitarra rustica dos Alpes tyrolezes.
O seu coração conhece, pois, toda a magia d'essa divina arte capaz de fazer mover as proprias pedras, segundo a tradição mythologica, e porventura esse balsamo celeste, que se chama a musica, tivera o condão de ungir durante algumas semanas as feridas da sua alma, como a harpa de David abrandava as coleras sombrias de Saul.
Mas a loucura em que a razão brilha ainda como um crepusculo explodira finalmente.
A catastrophe que lhe roubára o filho primogenito apunhalára-a na fibra mais delicada de seu coração de mãi.
Apesar das excentricidades que constituem a lenda da imperatriz, o que é certo é que ella foi sempre uma extremosa mãi.