Marcos Smeaton entrára com o pé direito nos aposentos e nas danças da rainha Anna, porque, pouco tempo volvido, uma servilheta velha, alcoveta industriosa, levava de noite o Marcos até ao leito da rainha.
Sir Henry Norreys e William Brereton descobriram mouro na costa, e recalcitaram. Armou-se uma embrulhada de ciumes, tanto maior quanta era a pompa de vestuario e galanices que o Marcos exhibia, indicando tolamente as boas fortunas de que gozava junto da rainha Anna.
A ousadia pimpona de Marcos Smeaton desbragou-o a ponto de se mostrar altaneiro com lord Thomaz Percy, conde de Northumberland.
Ora ainda n'esta ousadia chibante do menestrel andava o ciume, porque Thomaz Percy, antigo namorado de Anna Boleyn, lográra ser, á sombra de Henrique VIII, o mais feliz dos amantes.
A rainha ordenou com descaro a Percy que não maltratasse o Marcos, mas Percy, ferido talvez mais pelo ciume do que pela desconsideração, foi denunciar os novos amores da rainha a Thomaz Cromwell, ministro do rei Henrique.
Cromwell attrahiu a Londres Marcos Smeaton e, pondo-o na tortura, arrancou-lhe a confissão das relações adulterinas da rainha com os tangedores e bailarinos da côrte, incluindo elle.
D'alli foi Marcos Smeaton mandado para a Torre de Londres, onde não tardaram a ser igualmente encerrados Henry Norreys, William Brereton e o poeta Thomaz Wyat, muito protegido do ministro Cromwell.
N'este lance da nossa historia precisamos conversar um pouco a respeito do poeta Wyat, aliás famoso, comquanto amorosamente fosse mais pateta do que poeta.
Creado desde pequeno com Anna Boleyn, estabeleceu-se entre os dois um d'aquelles idyllios infantis de que Bernardin de Saint-Pierre deixou uma photographia generica na pastoral de Paulo e Virginia.
Mas os devaneios d'essa idade são gorgeios de rouxinol que ascendem ao azul, e por lá ficam pairando n'uma alada melodia, que lembra toda a vida com maior fiasco do que saudade.