Dividem-se as opiniões a respeito do comportamento de Anna Boleyn.

Os escriptores protestantes divinisam-lhe as virtudes; os catholicos põem em evidencia o desbragamento das suas libertinagens.

A sentença condemnatoria, assignada por Henrique VIII, accusa Anna Boleyn de traição, adulterio e incesto.

Guilherme Cobbett, comquanto protestante, faz resaltar o contraste da devassidão dos costumes da rainha Anna com a existencia virtuosa da rainha Catharina.

David Hume, o notavel historiador inglez, lança as graves accusações levantadas contra Anna Boleyn á conta das apparencias de coquetterie, que em grande parte ella havia aprendido em França, e das machinações facciosas dos seus inimigos, incluindo a viscondessa de Rochford, cunhada da rainha, que insinuou a suspeita do incesto.

Na chronica castelhana de Julian de Pliego vem a designação de que o auctor, talvez acobertado pelo pseudonymo, fôra contemporaneo dos factos que narra.

É certo que elle commette alguns anachronismos, como nota o marquez de Molins, mas não padece duvida que na sua chronica, facilmente escripta, com uma discreta sobriedade de rhetorica, pouco vulgar nos historiadores hespanhoes, ha grande copia de preciosas noticias, de interessantes pormenores, que a fazem estimabilissima.

Em Portugal Anna Boleyn ficou sendo, na tradição popular, sob a translitteração de Anna Bolena, o typo da mulher corrupta e corruptora, enredadeira e devassa, perturbadora e intrigante.

No que, porém, todos os historiadores estão de accordo é em attribuir a summaria decapitação de Anna Boleyn ao amor que o rei alimentava por Joanna Seymour, filha de sir João Seymour, dama formosissima, que fazia parte da casa da rainha Catharina.

No dia da execução de Anna Boleyn, Henrique VIII, para mostrar a alegria do seu coração, e porventura a «pureza» das suas intenções, vestiu-se de branco; e no dia seguinte desposou Joanna Seymour.