David Hume observa, para fazer elogio á consciencia de Henrique VIII, que este rei não queria conhecer outras ligações além das do casamento. A desculpa afigura-se pueril e inexacta, porque o rei viveu tres annos amancebado com Anna Boleyn, antes de se divorciar de Catharina de Aragão.

Fizeram-se grandes festas para solemnisar o casamento de Henrique VIII com Joanna Seymour, que, tendo sido dama de honor da rainha D. Catharina, se mostrava muito affeiçoada á princeza Maria, a qual o rei seu pai não tinha visto havia mais de tres annos.

Esta princeza, que, como se sabe, depois do casamento de Henrique VIII com Anna Boleyn apenas recebia o tratamento de madama, foi educada mais ou menos sob a influencia dos conselhos de sua mãi, D. Catharina de Aragão, de quem Rivadaneyra publíca uma carta, dirigida á filha, na qual se lê o seguinte periodo: «Dá recommendaçoes minhas á condessa de Salisbury: dize-lhe da minha parte que tenha firmeza de animo, porque não podêmos ganhar o reino dos céos sem cruz e attribulações.»

A condessa de Salisbury, Margarida Plantagenet, virtuosa dama, fôra aia da princeza Maria. Morreu justiçada aos setenta annos de idade, em 1539, por odio do rei, nas luctas contra os catholicos, aos parentes do cardeal Pole, que era filho da condessa.

Graças á intervenção de Joanna Seymour, a recepção feita pelo rei á princeza Maria, que não sem repugnancia se havia submettido ao scisma, pois que a sua educação tinha sido catholica, pareceu ser muito cordeal.

E logo, invertendo facilmente os papeis, ordenou o rei que a filha de Anna Boleyn passasse a receber o tratamento de madama, e a filha de Catharina de Aragão o de princeza.

Mas Joanna Seymour déra tambem á luz um filho, o mais lindo que jámais se viu, diz Julian de Pliego.

O nascimento de um herdeiro varão causou alegria a Henrique VIII, não obstante as difficuldades que esse facto trazia para resolver a questão dynastica, e ter custado a vida de Joanna Seymour, que morreu doze dias depois do parto.

Como diz Hume, a dôr do esposo foi absorvida pela satisfação do pai, que fez jurar principe de Galles o filho de Joanna Seymour, concedendo por essa occasião a dignidade de conde de Hertford a Eduardo Seymour, irmão da mallograda rainha, já anteriormente nomeado lord Beauchamp.

O baptisado fez-se com grande pompa, recebendo a creança o nome de Eduardo, que foi o sexto rei d'aquelle nome, e veiu a morrer aos dezeseis annos sem deixar successão. A princeza Maria, a cuja guarda Henrique VIII confiou o filho, tocou por madrinha; o conde de Hertford, irmão de Joanna Seymour, por padrinho.