Carlos V e Francisco I estavam então reconciliados. Como surgissem novas perturbações na Hollanda, principalmente em Gand, Carlos V, que residia em Hespanha, quiz ir pessoalmente calmal-as. Mas como a viagem por Italia e Allemanha seria muito longa, o imperador pediu ao seu prisioneiro de Pavia licença para atravessar a França. Francisco I mostrou-se magnanimo, deu a licença pedida e recebeu com grandes festas Carlos V. Alexandre Dumas, como o leitor deve estar lembrado, descreve-as no seu romance Ascanio. Ora, dada a conciliação de Francisco I e Carlos V, bem podiam estes dois principes, movidos pelo zelo religioso, cahir sobre a Inglaterra com todo o pezo dos seus exercitos.
Portanto, mais do que nunca, importava a Henrique VIII uma alliança com os principes allemães, para o que désse e viesse.
Henrique resignou-se por algum tempo, vivendo separado da rainha de dia e de noite. Dava como desculpa a suspeita de que Anna de Cleves não estava virgem quando a desposou. E secretamente mandou á Allemanha um emissario de confiança, o gentilhomem Vaughan, para averiguar o que podesse a este respeito.
O rei, já a esse tempo enamorado de Catharina Howard, sobrinha do duque de Norfolk, queria encontrar um pretexto para repudiar Anna.
Partiu Vaughan com dinheiro á ufa e, chegando a Cleves, reuniu em banquete alguns gentishomens, com o proposito de os embriagar. In vino veritas. Depois de haverem esgotado os picheis, elles diriam o que soubessem. Assim aconteceu. Um d'elles, mais expansivo na embriaguez, posto fosse criado do duque de Cleves, disse á mesa que a princeza havia desposado um cavalleiro, que morrêra na Allemanha de desgosto quando soube que acabavam de casal-a com Henrique VIII.
Surprehendido este fio da meada, Vaughan procurou desfial-a, fazendo-se acompanhar de cartas justificativas.
Interrogada a propria Anna por Henrique VIII, respondeu que tinha sido desposada com o duque de Lorena, mas que lhe disseram que elle havia morrido, e que de mais nada sabia.
Hume assevera que o casamento com o duque de Lorena fôra effectivamente tratado com Anna de Cleves, quando ambos estavam na infancia, e desfeito depois por commum accordo.
Todavia isto bastou para que Henrique procurasse divorciar-se da rainha Anna, allegando que não déra o seu consentimento interior para o casamento, e que não o consummára.
Esta ultima desculpa não é menos absurda do que a primeira, visto que Henrique VIII declarára que Anna de Cleves já não estava virgem.