Henrique VIII, comquanto adversario do papa, zelava a orthodoxia dos dogmas. Succedêra que Catharina Parr fallára um dia com certa franqueza e favor a respeito da reforma, acabando por emittir o seu parecer ácerca da eucharistia.

Soube-o o rei e queixou-se a Gardiner de que a rainha tivesse a ousadia de pensar de maneira differente d'elle. Chegaram a formular-se officialmente artigos de accusação contra a rainha; e passou-se a respectiva ordem de prisão. Este documento cahiu, porém, da algibeira do chanceller, e foi encontrado por um partidario da rainha, o qual correu a mostrar-lh'o.

Catharina dirigiu-se immediatamente aos aposentos do rei, que, por ser esse o seu gosto, e para experimental-a, fallou de assumptos theologicos.

Catharina esquivou-se tenaz e artificiosamente a entrar na questão, dizendo:

—As mulheres estão sujeitas ao homem desde a origem do mundo. O homem foi creado á imagem de Deus, e a mulher á imagem do homem; é pois ao esposo que cumpre regular as opiniões da esposa. Mas, como quer que seja, o dever da mulher é adoptar cegamente os principios do marido. Quanto a mim, obriga-me um duplo dever, pois que tenho a felicidade de possuir um esposo que, por sua intelligencia e saber, póde illustrar não sómente a sua familia, mas até os mais eruditos espiritos de todas as nações.

O rei, muito lisongeado, respondeu:

—Por Santa Maria! sois mais sabia do que o doutor Kate, e estais mais no caso de dar que de receber lições!

Catharina Parr declinou o elogio por immerecido, dizendo ao marido que o seu unico empenho era distrahil-o por alguns instantes dos seus grandes trabalhos e soffrimentos.

Henrique VIII replicou com alegria:

—É pois assim?! Bem está. D'aqui por diante seremos dois bons amigos.