No dia seguinte, o rei e a rainha, completamente reconciliados, conversavam no jardim quando o chanceller chegou acompanhado de quatro homens, para prender Catharina.
O rei obeso rebolou-se para elle, e desfechou-lhe epithetos injuriosos.
Quando o chanceller sahiu corrido, a rainha esforçou-se por tranquillisar o rei.
Henrique VIII disse-lhe:
—Pobre tontinha! Nem tu sabes o que deves a este homem!...
Não sabia a rainha outra coisa! Mas a sua astucia feminil e a experiencia de um terceiro casamento seguram-lhe a cabeça sobre os hombros.
Desde esse dia o chanceller ficou desprestigiado aos olhos do rei.
E Catharina redobrou de amabilidades para com seu marido, servindo-o á mesa, curando-lhe carinhosamente as feridas que elle tinha na perna esquerda e cantando-lhe trovas, para o adormecer, quando o rei, insomnioso, difficilmente rebolia na cama a sua incommoda rotundidade.
Conta Pliego que Henrique VIII, sentindo avisinhar-se a morte, no anno de 1547, se despedira ternamente da rainha, recommendando-a aos grandes do reino, e ordenando que lhe dessem sete mil libras, todas as suas joias e vestidos, se quizesse tornar a casar.
Accrescenta ingenuamente o chronista castelhano: E a boa rainha não pôde responder pelo muito que chorava.