Pegas metteu o filho de seu amo dentro de uma grande arca sem fundo. Fingindo que guardava pão na arca, alimentava todos os dias o conspirador.

Uma escrava preta, que havia em casa, cuidou ouvir gemidos, que sahiam da arca. Disse-o a João Pegas que, receiando se descobrisse o segredo, ordenou á preta que se calasse até que elle no dia seguinte verificasse se era verdadeiro ou não o caso dos gemidos.

Ao outro dia, a escrava tornou a ouvir gemer. Foi dizel-o a João Pegas, que se levantou do leito immediatamente, e a mandou buscar um balde de agua ao poço.

Quando a escrava estava tirando a agua, Pegas precipitou-a no poço, esperando cautelosamente que ella acabasse de escabujar na afflicção extrema dos afogados.

Logo que reconheceu que estava morta, gritou publicando que a escrava se afogára.

Mas o segredo do escondrijo de Fernão da Silveira ficou no fundo do poço, que era o que João Pegas queria conseguir.

Decorreu tempo, e o escudeiro tratou de fazer sahir de Portugal o seu hospede. Valeu-se para isso de um mercador, que se chamava Bartolo, e que levou comsigo para Sevilha Fernão da Silveira, disfarçado em mendigo.

Salvo em Castella, o foragido foi bem acceito na côrte de Izabel a Catholica, e lá lhe acudia com auxilios pecuniarios o conde de Benavente, fidalgo castelhano, que fôra grande amigo do pai de Fernão. Mandava-lhe todos os mezes um saco com duzentos escudos, mas Fernão da Silveira só tirava cinco, e devolvia o resto. O castelhano todos os mezes insistia em igual remessa, e o portuguez não deixava de insistir na recusa da quantia excedente a cinco escudos.

Comprehendeu o castelhano que era aquelle um homem retemperado de invencivel altivez lusitana, e, para acabar de experimental-o, certo dia em que se juntaram com outros fidalgos na ante-camara dos reis catholicos, deixou o conde cahir uma luva. Fernão da Silveira, em vez de se dar pressa em levantal-a, sentou-se n'um bufete. O conde de Benavente não desgostou d'esta arrogancia tão conforme ao espirito hespanhol, e celebrou-a. A noticia do facto espalhou-se com applauso na côrte de Castella, e chegou á de Portugal, onde D. João II, comquanto sempre resentido dos aggravos recebidos de Fernão da Silveira, e sempre implacavel nos seus projectos de vingança, commentou a noticia com esta phrase sentenciosa:

—Fernão da Silveira aonde chegar ha de sempre ter lugar.