D. Beatriz tinha sido educada na opulencia e, como era natural, não perdêra facilmente esse habito. Os saboyanos achavam-na altiva, orgulhosa, e criticavam n'ella os costumes de Portugal.
O duque, bem ao contrario dos sentimentos que lhe attribue o codice citado por Herculano, transigia com a esposa.
Elle proprio, quando a côrte se dirigiu a Genova, seguia o coche rico que conduzia a duqueza, montando uma mula, acompanhado pelo abbade de Beaumont.
Os genovezes, segundo o testemunho de Spon, censuravam que Carlos III dispendesse em pompas, para honrar sua esposa, o dinheiro que melhor seria empregado em fortificar a cidade.
Não obstante estas censuras, as festas continuaram.
Por sua parte, a duqueza devia sentir-se contrariada porque, tendo sido educada no esplendor dos Paços da Ribeira, via-se agora condemnada a viver n'uma côrte pobre e endividada, não sem que o povo murmurasse á menor despeza que ella fazia.
Mas, é Claretta quem o confessa: a experiencia não devia tardar em corrigil-a. D. Beatriz inteirou-se das circumstancias, como mostra a sua correspondencia, que Claretta examinou com cuidado, e que elle proprio divide em politica e particular.
Desprendida de todos os defeitos de educação, mostrando um espirito desassombrado, como o de quem não está impressionado por a saudade de um amor infeliz, como teria sido o de Bernardim Ribeiro, Beatriz de Portugal principia a cuidar seriamente dos negocios internos do paiz.
Logo em 1524 escrevia ao marquez de Pescara para que fizesse cessar as violencias que os soldados do imperador Carlos V, depois da victoria de Pavia, commettiam no ducado de Saboya com grande vexame para os habitantes. Carlos III implorava tambem no mesmo sentido.
A 13 d'agosto d'esse mesmo anno, D. Beatriz instava de novo, dirigindo-se ao capitão imperial Fernando d'Alençon para que deixasse de opprimir os povos do Piemonte, em particular os de Borge e Bognolo in maniera che li nostri subdicti li quali gia tanto hano patito non seano in tutto ruynati.