Em Castella, nas horas em que não frequentava a côrte, onde assiduamente concorria para sondar a seu respeito o animo de Fernando e Izabel, fraquejára por vezes aquelle homem forte, cuja altivez assombrára o conde de Benavente, e merecêra elogio ao proprio D. João II.
Perante a rigidez indomavel do rei de Portugal, antolhava-se-lhe desolador o futuro. Se lograsse escapar aos sicarios armados pela colera de D. João II, o que era muito pouco provavel, teria que viver e morrer longe da patria com o labéo de conspirador, sempre vexado pela necessidade de receber agasalho e protecção.
As sombras da noite punham-lhe no espirito o constante receio de emboscadas; atravessava as ruas com o sobresalto com que póde atravessar-se um sertão povoado de féras. Não se permittia a fraqueza do medo, não evitava as horas sinistras da noite, por mais que Izabel Rodrigues lh'o pedisse; mas tinha sempre presente o espectro da morte por traição.
Quando recolhia a casa, esquecia nos braços carinhosos da manceba, que lhe apresentava o filho, os sobresaltos d'aquelle dia, e repousava como o naufrago n'um porto de abrigo.
Ás vezes tinha furias de raiva contra D. João II, o assassino do duque de Vizeu, o flagello da nobreza portugueza, como elle lhe chamava. Retratava-o moralmente como um tyranno sedento de sangue e poder. Justificava a reacção da nobreza, e a sua, declamava como um verdadeiro jacobino do seculo xv, como um sans-culotte que se tinha antecipado trezentos annos aos da demagogia franceza.
A manceba ouvia-o tremendo com o filho sentado nos joelhos, e procurava aquietal-o com palavras brandas.
Mas Fernão da Silveira perguntava-lhe se poderia ter animo tranquillo e sereno um homem a quem D. João II, se o apanhasse, faria esquartejar, pregando-lhe os quartos nas portas de qualquer cidade ou villa, e a cabeça no pelourinho da praça publica.
Lembrava-lhe que o odio de D. João II costumava ser tão profundo e sanguinario, que não respeitava nem as regalias de nascimento nem os laços de parentesco.
Perguntava-lhe se não sabia que o duque de Bragança fôra decepado no cadafalso da praça de Evora; que em Abrantes cevára D. João II a sua vingança na estatua do marquez de Montemór já que, por se ter refugiado em Castella, não podéra ceval-a no seu corpo; que o duque de Vizeu, cunhado do rei, fôra por elle proprio assassinado em Setubal. Agradecia á Providencia o ter-se encarnado na pessoa de João de Pegas para o salvar; senão, haver-lhe-ia acontecido o que acontecêra a D. Pedro de Athayde, que fugindo de Setubal para Santarem fôra preso no caminho, publicamente degolado e feito em quartos.
Os fidalgos castelhanos continuamente estavam avisando Fernão da Silveira das repetidas instancias que D. João II fazia junto dos reis catholicos para que lh'o entregassem. O conspirador teimava em não querer parecer fraco, deixava-se ficar, sempre intimamente sobresaltado e desconfiado.