—Agradeço do fundo do coração, meu avô, o sentimento que o levou a querer ouvir-me sobre este ponto. Respondo, abrindo-lhe a minha alma. O sacerdocio, a que me destinava, apavorava-me quando eu sentia enflorar-se o peito com as primaveras que são apanagio dos primeiros annos da vida. Entre mim e a minha esperança, via levantar se a barreira do sacerdocio. Chorei, exasperei-me, e levei o écho das minhas amarguras aos ouvidos de quem entrava no mundo com direito a sahir d’elle sem rasgar o coração na minha corôa d’espinhos. Quiz rebellar-me, no meu desespêro, contra a vontade de meu avô. Suspendeu-me sempre á beira do precipicio um braço amigo, apontando-me para o Céo. Esperei do Céo o balsamo, o confôrto. Sem deixar de crer em Deus, via porém crescer hora a hora o meu desespêro. Era horrivel viver assim, meu avô! Fui vivendo uma vida d’esperanças e de lagrimas, de fé e de descrença... Só sabe comprehender isto, quem viveu assim. Era delicado de mais para tamanhas procellas o coração que eu amei. Despedaçou-o aquella agonia lenta. Despedacei-o eu, meu avô. A martyr succumbiu ás minhas dores. Amava-me de mais para me esquecer. Chorei de desespêro; choro agora de remorso. Encherei com as minhas lagrimas o calix do sacrificio. Na expiação de todos os dias supplicarei o perdão de Deus. Quero e devo expiar assim, meu avô, se a pessoa a quem me refiro adormecer no tumulo para accordar no Céo.


XXXI

«As arvores tanto as tenho para mim como para os passaros» escreveu Lamartine no formoso livro Pedreiro de Saint-Point.

Ó alma sublime de poeta, tu não levavas o teu egoismo ao extremo de quereres as arvores unicamente para te envolverem em mysteriosa sombra nas tardes meditativas do estio. Tu sabias que esse mundo de folhas verdes, sussurrante e oloroso, se pode servir de cupula ao homem em horas de profunda meditação, é tambem das aves que se deixam absorver nos seus extasis d’amor, e querem esconder-se nas sombras da floresta, para cantar, sem que ninguem as veja.

Deixemol-as entoar os seus modilhos emquanto nós pensamos.

Ellas estão no seu mundo, nós estamos no nosso.

O universo é para todos.

Faz-me tristeza ver que os homens as perseguem, a ellas, que tornam alegre a solidão dos campos e que traduzem em musicas suavissimas os mais delicados pensamentos do amor e da saudade. Nós, quantas vezes nos não embriagamos nos mais delicados pensamentos, nos mais mimosos affectos, sem que possamos encontrar na palavra o prisma que reproduza as formosas cambiantes do nosso espirito! Ellas, as aves, teem uma inflexão para cada idéa, uma harmonia para cada sentimento. Merecem mais respeito as pobresinhas, se não fôr por outra coisa, ao menos por isto—que já é muito.