A creança d’hoje ha de ser homem amanhã e, se lhe ensinarem a disparar a sua clavina, irá desfechal-a contra o seio offegante d’uma andorinha, que commetteu o unico delicto de querer procurar alimento para a sua pequenina familia. Não digamos pois á creança que se embriaga nas innocentes alegrias da sua edade: «Amanhã, visto que estás homemzinho, faze-te caçador. Pega n’esta espingarda e vae pelo caminho fora. Rompe através do matto, salta córregos, galga montanhas, que todos esses sacrificios serão pagos pelo prazer sanguinario de matar. Se vires um bando d’aves, ainda que seja uma caravana de passarinhos alegres, que vão cruzando o espaço, como uma tribu nómada que atravessa o deserto, faze pontaria e atira. Se ferires a mãe, fecha o coração á magua de teres levado a orphandade e a viuvez a uma familia inteira, cerra os ouvidos aos saudosos lamentos de quem fica viuvo e orphão n’esse deserto dos céos! Se ferires o filho, esquece-te de que roubaste a alegria d’um coração de mãe, de que a ave é tanto mãe, ou mais ainda, do que a mulher, esquece-te, oh esquece-te... d’isto tudo e... desfecha a tua espingarda».

Apraz-me entrar n’um cerrado onde as aves vivem em plena liberdade sem recearem da clavina do caçador, nem das redes da creança. Ahi cantam, amam e noivam sem emmudecer de sobresalto uma unica vez. Se o bosque fica perto d’uma corrente murmurosa, diremos que estamos no jardim do amor, ao ouvir os rouxinoes. Se fica n’um retiro formosamente triste, diremos que estamos na estancia da saudade, ao escutar as rôlas.

As aves da floresta do Bom Jesus do Monte seriam verdadeiramente ditosas, se não as perseguissem as creanças—os unicos inimigos que ellas lá podem ter. Quem quer ouvil-as, sobe á montanha sagrada; as creanças ouvem-n’as, namoram-se de suas toadas alegres e querem prender as proprias aves, para que já lhes não fuja aquella doce musica.

Maria Luiza e Eduardo Valladares estiveram na alameda da Mãe d’Agua, no dia trinta de março, dia em que a floresta toda se levantava em jubilos e canticos para saudar a primavera.

Maria Luiza, meio inclinada para o tumulo, parecia sorrir á amenidade d’aquelle dia.

Tinha nas faces a pallidez da morte, mas descerravam-se-lhe os labios n’um sorriso sereno como o da esperança. Esperaria ainda ella a felicidade terrena? Cremos que sim. Dizia tranquillamente a Eduardo Valladares, que no Céo havia um écho para cada desgraçado, e que lhe segredava o coração que não estava longe a felicidade. Queria vêl-o queria falar-lhe, queria ouvil-o a miude, e o pobre moço, desenganado pela voz da medicina, amparava-a nos braços, na afflictiva ancia que precedia quasi sempre uma nova hemoptyse. Muitas vezes dissera Maria Luiza, quando ainda era alegre:

—Quem sabe se virei a morrer da morte de minha irmã? Talvez... Eramos tão amigas!...

Depois que começara a soffrer, especialmente depois que foi para o Bom Jesus, dizia a Rosinha:

—Eu hei de melhorar. Aqui amei e aqui soffri. Mas a gente gosta tanto dos sitios onde soffre, amando, que é como se tivesse vivido n’elles sem nunca ter chorado... Não posso morrer aqui, bem vês. Tudo são recordações a chamar-me á vida. Não posso morrer, não.