—Olha cá. Pelo que disse a meu respeito, sabes que não passa tudo de graça. Lá quanto a ordenar-se o rapaz, é coisa assente e proposito firme. Que queres tu que elle seja? Queres que o mande para Coimbra gastar-nos rios de dinheiro para o vermos ao cabo de cinco annos a caçar môscas como o pae?
VIII
Eduardo Valladares, quando soube que n’essa noite poderia vêr Maria Luiza, sentiu no coração uma alegria subita que de momento a momento era obscurecida por umas sombras ligeiras... Dir se-hia que n’aquella alma de dezeseis annos se travara lucta entre os lampejos d’uma esperança e as nuvens d’uns receios que são attributo da timidez procedente da inexperiencia.
N’aquella alma, digamol o pois, preparava-se uma aurora: luctava a luz com as trevas.
Ver Maria Luiza era levantar o espirito a páramos celestiaes ante gostados em horas de dulcissima meditação; era voejar nas azas da esperança até onde a felicidade pudesse subir uma creatura absorta em sonhos do Céo. Mas vêl-a não seria despenhar-se em abysmos insondaveis, se nos labios d’ella não desabrochasse um sorriso equivalente a uma promessa? Todas as dúvidas, que até ahi o haviam salteado dia e noite, como que se levantaram em tropel e deliciosamente lhe pungiram o coração amoroso.
O filho do bacharel entrou na sala da viuva Machado com a timidez de quem arriscasse um passo n’um estrado sobreposto ao boqueirão d’um despenhadeiro. O mesmo porém foi entrar e cegar-se deante d’aquella visão aerea, tentadora, que parecia encher a casa d’alegria e esplendores.
A aurora da felicidade, que a cercava, afigurou-se porém a Eduardo Valladares o clarão sinistro d’um incendio que lhe vinha requeimar o coração.
A elle, que se sentia triste, porque amava, a elle, que luctava com a incerteza, porque esperava, a elle pareceu pois que só a estrema despreoccupação d’espirito podia dar a tranquilla alegria que Maria Luiza revelava no gesto e no olhar.