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Fez-se a luz.
Descerraram-se de par em par as portas d’esse olympo esplendido aonde só podem subir duas almas identificadas n’uma unica aspiração.
Eduardo Valladares sentiu n’um momento dissiparem-se todas as dúvidas, todos os receios, todas as angustias. Maria Luiza deixara-se fascinar pelos clarões rutilantes d’esse mundo que entrevira em sonhos e, irmã da mariposa, lançava-se á chamma sem curar de saber se encontraria a morte. São realmente dignas de estudo naturezas como a sua.
Ha certas creaturas que entraram no mundo com o coração a trasbordar d’alegria.
As scenas variegadas da vida absorvem-nas e enlevam-nas, como as cambiantes d’um caleidoscopo enlevam e absorvem uma creança.
Tudo as namora, tudo as fascina. Seguem com estremecimentos de jubilo as choreas caprichosas das borboletas e das aves; parecem querer luctar com a perfidia da onda, quando estão á beira mar, e deixar-se-hiam morrer se soubessem que a morte era... alegre. Mas—singular contradicção!—um ligeiro incidente as commove; derrubae um ninho e vel-as-heis chorar.
São porém nevoas que se dissipam com um sôpro. A alegria impelle-as, e ellas, as venturosas creaturas, deixam se deslizar suavemente por uma estrada de rosas...
Um dia quer Deus que lhes embargue o passo o leito d’um moribundo, permittam-me o exemplo. Admirae-as então. Sabeis o que são estremos de dedicação inegualavel? Se não sabeis, vinde apprendel-os com ellas. De tudo se esquecem, tudo alienam, a propria vida, a felicidade, a alegria para se absorverem n’um unico pensamento e n’uma unica afflicção.