«Estavamos no monte do Senhor, na santa Jerusalem e os teus labios falaram a linguagem do teu coração... Os échos da montanha guardam o segredo da nossa felicidade. Que as nossas esperanças todas se desatem em florecimentos perpetuos como os da primavera que cada dia enche de vida nova e nova opulencia a floresta sagrada.



XII

Estava n’esse dia, como sempre, cheia de amenidade a alameda da Mãe d’Agua.

—Que felicidade! dizia Eduardo Valladares apertando entre as suas as mãos de Maria Luiza. Que felicidade! Abençoado o teu amor que me dá confôrto e alento para ir procurar a realidade dos meus sonhos, dos nossos, devia dizer, onde quer que ella esteja... E todavia eu d’antes era triste, tão triste, que nem tu sabes! Meu pae, quando me surprehendia a escrever, dizia para minha mãe:—Este rapaz ha de ser desgraçado! Por que? perguntava ella com terna inquietação. Porque começa a sonhar muito cedo, concluia meu pae. Oh! dize-me que era falsa esta prophecia. Por que não havemos de ser felizes? Tu amas-me muito, pois não amas?

—Que transformação completa na minha vida, Eduardo! As minhas amigas tinham-me á conta d’um coração que nasceu para ser livre como a aguia, e só para isso. Eu, porém, consultando-me a mim mesma, conhecia-me muito outra do que me suppunham. E não me enganei; bem sabes tu que me não enganei. Havemos de ser felizes. Sabes o que é ter no Céo um anjo que vela por nós a toda a hora? Lembra-te de minha irmã, que era um anjo, e fortalece-te com essa esperança. Se porém o Céo da nossa felicidade tem de se annuvear com tempestades invenciveis, se temos de separar-nos um dia para tomar cada um por differente caminho, se tudo isto tem d’acontecer, então que a alma de minha irmã me chame para o pé de si, que eu prefiro morrer a vêr-me sem ti no mundo...

—Oh! Cala-te, cala-te, que me sinto morrer. Afasta da tua alma esses presentimentos sombrios, que são meras visualidades. Não somos nós felizes? Olhemos em redor de nós. Tudo placido e ameno como hontem e como ámanhã. E, no meio d’esta tranquillidade do ermo, não hão de sonhar as nossas almas em leito de rosas e esperanças? Para que havemos d’ir procurar os espinhaes que nos não vedam o passo? Põe de parte esses pavores imaginarios. Consulta antes a tua alma e pergunta-lhe se é tão firme que sacrifique todo o futuro a um affecto, se é tão corajosa que possa dizer ao desprotegido da fortuna: «Sei que és pobre, mas quero soffrer metade das tuas amarguras.»

—Pois duvidas ainda! Pela alma de minha irmã te juro que o meu amor será eterno. Por que é falares de pobreza? Acaso eu, egualmente desprotegida da fortuna, podia levantar o meu espirito a desmedidas ambições? Que importa o valor da riqueza, quando se trata do valor da felicidade? Promette que não mais falarás d’um assumpto que magôa dolorosamente a minha alma. É tamanha a nossa esperança que ella só nos deve absorver...

—Oh! perdôa-me...