«Vinde e subamos ao monte do Senhor», escreveu o propheta.

«E fomos, e subimos. Entrei na floresta sagrada e para logo senti inebriar-se a minha alma n’uma vaga e dulcissima esperança. Fui subindo e, á medida que subia, perpassavam no meu espirito as melodias que parece sahirem d’entre o arvoredo sombrio. Tudo é doce, tudo é inefavel na montanha do Senhor. Ha no interior d’aquella esplendida cathedral de verdura um como longinquo e continuo suspirar d’um orgão vibrado por mãos invisiveis.

«Para aquelle concerto perenne da floresta contribue tudo quanto se esconde em tão deliciosas sombras: o arvoredo que murmura, as fontes que suspiram, as aves que chilriam dialogos maviosos, e os corações que se expandem na linguagem suavissima do amor...

«Foi na montanha do Senhor que as nossas almas se identificaram para sempre n’uma unica existencia.

«Foi lá que tu recebeste no teu coração as queixas do romeiro e lh’as devolveste em ridentissimas esperanças depois de purificadas no crisol d’um amor celestial.

«E a tua voz sobrelevava todos os murmurios e todas as melodias da floresta e soou aos meus ouvidos como um hymno cadenciado na harpa d’um cherubim.

«E eu repeti as palavras que momentos antes se me tinham deparado na legenda da Esposa dos cantares e disse:

A tua voz murmure a meus ouvidos[3]

e deliciei-me nas cadencias inimitaveis que a tua bôcca jorrava ao murmurar: «A agua da montanha é tão livre como eu».

«É pois certo? A tua alma é tão livre como a onda prateada que desliza por entre as verduras da serra e cae em chuva de perolas na amphora de cada fonte? A tua alma é tão livre que possa juncar de flôres a estrada dos meus dezeseis annos á semelhança da corrente da montanha que vae orvalhando as boninas da encosta?