—Tem razão. Eu devia ser menos vaidosa e mais verdadeira. Valeu-lhe a admiração de todo o mundo, porque todo o mundo admira o genio deslumbrante d’um homem que soube exaltar n’uma epopêa as glorias da patria que o deixou morrer de miseria.

—Bravo, minha cara menina! Gostei d’ouvil-a!

—O sr. João Nicolau está gracejando. Mas a verdade é que o genio de Camões conseguiu muito, na minha opinião. Deu a conhecer ao mundo civilisado o quadro das velhas glorias portuguezas, para que ficasse de pé a chronica nobilissima d’um povo quando as convulsões sociaes subvertessem a nossa individualidade historica. Uma epopêa é muitas vezes um epitaphio levantado sobre o tumulo d’uma nação que foi. Tenho ouvido dizer que os poemas de Homero e Virgilio representam hoje a Grecia e Roma. Quem sabe se os Lusiadas serão a unica recordação que sobreviva ás ruinas de Portugal?

—A modo que tem razão... Ora deixe-me ver se me lembro d’uns versos do José Agostinho, que vinham agora a proposito. Olhe que o José Agostinho é um poeta que me enche as medidas! Tem ouvido falar d’elle?

—Ah! bem sei. Do José Agostinho não gosto.

—Não gosta! Pois já leu?

—O José Agostinho não tem sentimento nem inspiração.

—Ora não diga isso!

—São opiniões. O certo é que meu pae tinha algumas obras do José Agostinho e eu algumas folheei. Mas vamos aos versos, que os desejo ouvir recitados pelo sr. João Nicolau.