Decorrido tempo, no fim de setembro de 1852, Eduardo Valladares subiu á sala da bibliotheca evidentemente sombrio, a ponto de inspirar sobresalto ao seu velho e dedicado amigo.
—Recebi ordem terminante de meu avô para me ir matricular no Seminario, e o meu coração não pode resistir ao supplicio que esta resolução lhe impõe, disse com accento melancholico Eduardo Valladares.
Na casa da rua do Carvalhal ouvia-se a esse tempo a voz atroadora de João Nicolau clamando:
—Amanhã vae o rapaz matricular-se no Seminario. Lá o Rubicon do lyceu, vencido está. Agora vamos a vêr como se sae da theologia, que sempre é coisa mais séria...
—É pois chegada a occasião de reflectires maduramente, respondia D. Maria d’Assumpção. D’esta decisão depende o futuro de teu neto, e não deves ser precipitado. É conveniente pensar.
—Já pensei e tornei a pensar. Está dito, está dito. Vae matricular-se no Seminario.
—Sondaste lhe porventura a vocação? Quem sabe se lhe repugnará o futuro que tu despoticamente lhe preparas, homem?
—Despoticamente! Essa agora é muito boa! Pois é despota quem faz um beneficio?
—Não digas beneficio. De quem ha de vir a ser tudo o que nós temos, pouco ou muito, senão d’elle ou dos paes?
—Quem sabe o que Deus fará, mulher? O que é que nós temos? Algumas propriedades em Braga e uma quinta em Vianna! Olha a riqueza! E se vier uma doença prolongada não havemos de gastar quanto fôr preciso? Lá do Sebastião tenho pena, por que não é mau rapaz, á parte o ter desembarcado em 32 com não sei quantos outros mindelleiros que vinham estropeados a ponto de mal poderem com a arma ás costas! Por isso é que mandei vir o rapazinho, e já que o pae m’o confiou posso pôr e dispôr á minha vontade.