Estão-me agora cahindo dos bicos da penna uns certos dizeres de D. Francisco Manuel, que veem de geito: «Persuado-me que esta cousa a que o mundo chama amor, não é só uma cousa, porém muitas com um proprio nome. Poderá bem ser, que por isto os antigos fingissem haver tantos amores no mundo, a que davam diversos nascimentos; e tambem pode ser venha d’aqui, que ao amor chamamos amores: pois se elle fôra um só, grande impropriedade fôra esta. Eu considero dois amores entre a gente. O primeiro é aquelle commum affecto com que, sem mais causa que sua propria violencia, nos movemos a amar, não sabendo o que, nem por que amamos. O segundo é aquelle, com que proseguimos em amar o que tratamos, e conhecemos.»

Eduardo Valladares amava Maria Luiza antes de a vêr. Em horas de dulcissimos arroubos creara a sua phantasia uma visão aerea, formada de perfumes e de estrellas, meio anjo meio mulher, meio do céo meio da terra... Este era o primeiro amor de que fala D. Francisco Manuel, o amor do ignoto e do intangivel. Depois, um dia, por acaso, encontrara a consubstanciação de todas essas particulas aereas, deixem-me assim dizer, encontrára na terra a realidade dos seus sonhos queridos e absorvera n’aquelle sentimento impetuoso toda a vida de que uma organisação extremamente delicada pode dispor.

Para aquella alma ardente e sonhadora o amor não podia ter a serenidade das estrellas n’uma noite d’estio: devia de ser violento como as convulsões do vulcão que levanta ao céo as lavas encandescentes.

D. Maria d’Assumpção enganava-se pois, como todas as almas que nasceram, dedicadas e boas, para o remanso dos affectos vulgares.

Rodrigues d’Abreu, coração aquecido ao fogo da poesia posto que duramente provado pelas amarguras do mundo real, Rodrigues d’Abreu é que se não enganava assim, nem se deixava cegar pela tranquillidade apparente do filho do bacharel.

O bibliothecario de Braga, que tinha tanto de poeta como de christão, andava sobremodo inquieto com os soffrimentos d’aquella alma cujos soffrimentos devassava. Lembrou-se de escrever a Sebastião Valladares com a rude franqueza de homens que choraram juntos as lagrimas do exilio. Escrever-lhe seria, porém, mostrar ao pae a profundidade do abysmo em que se debatia a alma do filho. Este alvitre rejeitou-o o honrado bibliothecario por demasiadamente impiedoso e cruel.

Rodrigues d’Abreu bem comprehendera que Eduardo Valladares amava, e sabia que era coagido a seguir a carreira ecclesiastica. Não bastava todavia comprehender e saber isto; era preciso mais.

Era preciso ao medico espiritual ouvir a exposição circumstanciada do doente. Receava porém provocar as labaredas do incendio latente, e este receio acobardava-o. Mas como deixaria consumir-se lentamente aquella alma cuja pureza aquilatara tantas vezes, elle, que era bom, dedicado e nobre? O velho bibliothecario, n’essas horas de attribulada incerteza, pedia ao Céo a luz da inspiração.


XIX