Rodrigues d’Abreu costumava abraçar-se, quando a sua alma carecia de confôrto, ao esteio d’um coração amigo, que era urna de balsamos para todas as afflicções.
Frei Domingos do Amor-Divino, o conselheiro, o arrimo, o cyreneu do bibliothecario bracharense, tinha purificado o seu coração nas asperezas da disciplina conventual, nas tribulações da miseria e nas lagrimas choradas na solidão, deante d’um crucifixo.
Carmelita descalço, foi sempre modêlo e exemplo nos cargos que teve de exercer em hospicios differentes por decisão do definitorio geral da sua ordem.
Na rigorosa observancia do regimen monastico e na prática constante da virtude lentamente se mundificara a alma do religioso carmelita, já de natural propensa ao bem.
O convento foi-lhe sempre chrysol desde que solemnemente professou no convento de Nossa Senhora dos Remedios, em Lisboa, até que, silencioso e compungido, sahira com o resto da communidade do convento do Carmo de Braga, dizendo para sempre adeus á casa que lhe devia ser tumulo.
Nunca Frei Domingos do Amor-Divino se entrincheirou com as reixas do mosteiro para, a coberto de perseguições, accender odios partidarios e soprar injurias a qualquer das duas facções que por longo tempo se degladiaram em accêsa lucta civil.
Não lhe ouviram nunca razoamento, nem sequer monosyllabo, que denunciasse o rumo das suas inclinações politicas.
Quando chegava ás cellas do convento um echo das tempestades exteriores, costumava dizer Frei Domingos do Amor-Divino:
—Não curemos de profundar essas negruras. A porta que se fechou sobre nós é uma como barreira que nos separa das desgraças que pesam sobre Portugal. Que o espirito do Senhor desça sobre nós e seja comnosco, irmãos.
Retumbou finalmente aos ouvidos do carmelita um como trovão que parecia abalar os alicerces do convento: era a voz de debandada que se repercutia ao mesmo tempo no seio de todos as ordens religiosas de Portugal. Frei Domingos do Amor-Divino cruzou com os seus confrades um olhar afogado em lagrimas e desceu á claustra para se despedir da lage sob a qual esperava dormir o somno eterno. N’esse momento, voltavam umas andorinhas que tinham fabricado o ninho no friso da crasta.