Foi dilacerante aquelle lance. As andorinhas, ficavam e a communidade... sahia.
Frei Domingos do Amor-Divino foi um dos religiosos portuguezes que emmudeceram na sua dôr, e procuraram na solidão o refugio que não podiam encontrar em qualquer outra parte.
Dissolvida a grande familia monastica portugueza e serenadas as tormentas politicas que mergulharam em rios de sangue as decantadas boninas das varzeas de Portugal, Frei Domingos do Amor-Divino assentou residencia em Braga.
—Quero vêr a toda a hora o ninho das andorinhas, dizia elle referindo-se ao convento do Carmo. Ali lhes escutei o alegre chilrear e alli esperava morrer com ellas. O meu coração precisa d’este consôlo.
Sua grande affeição á casa onde tinha vivido, esquecido do mundo, levou o a escolher cubiculo d’onde ao menos pudesse espreitar as torres do seu convento. Recolheu se Frei Domingos a uma pobre mansarda da rua do Carvalhal e ahi viveu a vida angustiada da miseria e da solidão. Muitas pessoas, que ajoelharam a seus pés com o coração requeimado, levantaram se do confessionario com os olhos marejados de lagrimas.
Isto diz-se para até certo ponto se explicar o respeito com que os vizinhos o olhavam e cumprimentavam quando sahia e entrava.
João Nicolau, se acertava vêl-o, dizia ordinariamente:
—Ó mulher, estes pobresinhos dos frades, sem casa e sem pão, fazem realmente despedaçar a alma a quem os vê. E olha como o nosso vizinho vive resignado, que até se lhe rie o semblante! Deus perdôe a quem...
E deixava quasi sempre a phrase incompleta para não evocar recordações pungentes que tinha recalcadas no coração.
Um dia uma viuva desvalida, mãe de quatro filhos, ajoelhou supplicante aos pés de Frei Domingos.