O virtuoso carmelita levantou-a compassivo e disse-lhe:

—Se na minha mão estivesse remediar a vossa miseria, remediada estava. Não desanimemos porém. «Pedi e dar-se-vos-ha, buscae e achareis, batei e abrir-se-vos-ha» disse o Divino Mestre no sermão da Montanha. Sigamos pois o conselho de quem nol-o podia dar.

E foi-se de porta em porta, seguido da viuva e das creancinhas, esmolando para a mãe e para os filhos.

Rodrigues d’Abreu foi um dos não muitos corações que se enterneceram a lagrimas deante d’aquelle edificante e extranho espectaculo. Desde então nunca na alma do bibliothecario bracharense passava uma dôr intima, que elle não fôsse desafogal-a no coração de Frei Domingos do Amor-Divino.

A sorte desventurosa do filho do bacharel Valladares trazia trabalhado de crueis angustias o espirito do bibliothecario bracharense. Foi pois n’umas das horas de doloroso cogitar a tal respeito, que na alma de Rodrigues d’Abreu passou um lampejo d’esperança, ao lembrar-se do muito que podia fazer, em tão apertado caso, Frei Domingos do Amor-Divino.

Não hesitou um momento. Tinha pedido ao Céo a luz da inspiração e á conta d’inspiração celeste tomara elle o pensamento que o impellia para o religioso carmelita.

Foi procural-o, falou-lhe, desdobrou-lhe o quadro das afflicções que eram d’outrem e que sentia como suas. Frei Domingos attendeu-o e escutou-o humilde e compassivo, respondendo finalmente:

—É grave e trabalhoso demover o proposito d’um ánimo resoluto. Operemos e esperemos todavia. Deus autem noster in cælo; omnia quæ cumque voluit, fecit.[6]

Depois que Rodrigues d’Abreu sahiu do cubiculo da rua do Carvalhal, Frei Domingos do Amor-Divino ajoelhou-se deante do seu crucifixo invocando as graças do Céo. Durante a oração illuminou-se-lhe o espirito, e quando o carmelita se levantou, tinha já traçado o plano da obra espinhosa que tomara sobre si, esperançado no auxilio divino, como revelam estas palavras que murmurara ao oscular o crucifixo: