—Não comprehendo, como desejava, a referencia da palavra isto. Tens a bondade de m’a explicar?
—Isto, replicou Mendonça desfechando uma gargalhada, isto, é a alienação do direito de ser homem, que a sociedade nos quer impor, a nós, os que seguimos a vida ecclesiastica; isto, é a investidura ridicula da batina; isto, é a tonsura com que nos cerceiam os cabellos emparelhando-nos aos scelerados que estigmatisavam nos logares publicos; isto, é este assentamento de praça na milicia sagrada, que não pode deixar de ter as liberdades de todas as milicias...
—E isso, o que tu disseste, replicou Eduardo Valladares, é a linguagem desbragada do soldado que veste as armas, não para militar pela causa que jurou, mas unicamente para ter direito á pilhagem...
—Santimónias de Tartufo, bem dizia eu! Olha que nem tu nem eu havemos d’enriquecer com a pilhagem. E d’ahi, pode ser que tu chegues a fazer casa... Quantas missas tencionas dizer por dia?
Eduardo Valladares ia denunciar o asco que lhe estava causando aquelle falar licencioso, quando um maltrapilho, que passava, bateu familiarmente no hombro de Mendonça e apostrophou:
—Ó homem! eu dormi quatro horas e tu não havias de dormir muitas mais! Perdi tudo... A sorte negou-se, e deixou-me a tinir!
Eduardo Valladares foi seguindo seu caminho, sobremodo entendia da approximação d’aquelle repulsivo caracter. O de Guimarães e o maltrapilho ficaram conversando e revendo provavelmente as paginas ascorosas da historia d’uma noite passada em qualquer espelunca de jôgo.
O filho do bacharel foi seguindo sempre pelo Campo de Sant’Anna adeante e, transposta a egreja de S. Victor, sentou-se no caminho desfrequentado a olhar para o arvoredo que ao de leve ondulava na encosta do Bom Jesus. Ahi, n’esse cogitar em si mesmo, passou duas horas que tanto tiveram de tribulação como de doçura. N’aquelle seu ermar havia um misto d’esperança e desespêro, que praza a Deus que os que hoje se julgam felizes nunca possam comprehender.
O leitor, que se defrontou já com o perfil respeitavel de Frei Domingos do Amor-Divino, ponha os olhos no reverso da medalha, n’este seminarista de Guimarães, que já cem vezes ou mais deve ter levantado com mãos impuras o calix que Frei Domingos offerecia a Deus todos os dias, e depois volte a pagina e leia o capitulo seguinte para restituir á sua alma as doçuras religiosas que os labios de nossa mãe coáram aos nossos ouvidos quando nos ensinaram as primeiras orações.