Eduardo Valladares pensava n’isto e conhecia que a sociedade não levantava entre um e outro barreira que pudesse distancial-os, para que a lama, levantada na passagem do mau padre, não fôsse salpicar a face do sacerdote exemplar.
Esta distancia conservava-a Eduardo Valladares no seu espirito, que é unicamente onde se pode distinguir vicio e virtude quando é uso confundil-os e tomal-os um pelo outro só para se não castigar o vicio nem premiar a virtude.
N’aquella dolorosa introversão do seu espirito, via se Eduardo Valladares já sacerdote, offerecendo todos os dias a Deus no calix do sacrificio a vida que lentamente lhe arrancavam e, como se isto não fôsse provação de sobra, via-se tambem exposto aos chascos da sociedade que insulta um raro exemplo de virtude, quando elle apparece, por estar habituada a encontrar a torpeza, a cada hora, nas praças como nos templos.
Corroendo a arvore sacrosanta do evangelho, regada pelo suor dos virtuosos cultores e mimosa dos cuidados d’elles, descobria o ominoso áspide, o verme da reacção, que contramina a obra piedosa e envenena com a baba immunda os fructos que puderam ser opimos, damnificando a colheita. Quando apparece o modêlo das verdadeiras virtudes evangelicas, quando surge, de longe a longe, um Frei Domingos do Amor-Divino, a sociedade, na maxima parte, repelle-o e vitupera-o e apedreja-o irreverentemente.
No dia em que o religioso carmelita sahira a mendigar de porta em porta para a viuva e para os quatro orphãos, não muitos, como já dissemos, foram os corações que se abriram ao benefico influxo d’aquelle espectaculo edificante. Muitos o repelliram com desamor e remoques d’esta laia:
—Que peça para um, que já não é pouco. A gente não tem obrigação de sustentar as familias dos frades pobres e devassos...
E Frei Domingos sahia, com a sua velhice e com a sua humildade, chamando mentalmente o medico divino para o coração empedrenido.
O seminarista de Guimarães abeirou se de Eduardo Valladares com rude familiaridade:
—Ó homem! estava longe de te encontrar aqui! Tão recatado vives, que não ha pôr-te a vista senão á hora da aula! Ora dize-me uma coisa. Tu levas isto a sério ou usas de santimónias de Tartufo?
O filho do bacharel fitou com admiração o de Guimarães e ponderou entre delicado e digno: