Os vestigios das lagrimas choradas desvelariam a um espirito desassombrado o segredo que o coração de Maria Luiza com tamanho empenho recatava; bastariam para eloquentemente denunciar os soffrimentos crueis que ella procurava dissimular trocando em flores o orvalho dos seus olhos.

Eduardo Valladares, moralmente sobreexcitado, lia as cartas e, diga-se a verdade, encontrava n’ellas um como refrigerio ministrado por mão do anjo da guarda; por momentos se tranquillisava com as esperanças a que o estava convidando o ánimo apparentemente tranquillo de Maria Luiza.

Durava apenas momentos, como dissemos, a acção benefica da leitura. Após aquelle instantaneo repouso, rugiam de novo as mesmas tempestades e era então o revolver se no mesmo leito de Procusto, em desesperadora ancia. O que elle claramente via n’esses angustiosos momentos era o infernal dilemna que comprimia a sua vida entre dois estiletes rubros de fogo maldito:—Succumbir ou rebellar se.

Succumbir era amortalhar se na batina do sacerdote; dilacerar o coração, dia a dia, hora a hora; despenhar em abysmo insondavel as mais formosas visões do céo da sua mocidade; separar-se d’ella, da mulher adorada, para nunca mais aspirar o perfume dos seus labios, e não só separar-se mas tambem infelicital-a; e depois passar sereno e tranquillo, aconselhando esperança, por entre os que se ajoelhassem para beijar-lhe a fimbria da batina. Rebellar-se era ter de fugir, levando para toda a parte o remorso de haver envenenado a tranquillidade do lar paterno; era ter de abandonar o anjo que na linguagem dulcissima do Céo lhe pedia que ficasse; era dar á sociedade o direito de insultar as suas dores mais santas; era finalmente faltar á promessa, que fizera, de esperar resignado o momento em que chovesse do Céo o refrigerio que só o Céo podia ministrar em tão difficil conjunctura.

Ficou pois; como havia promettido.

Approximam-se as férias do Natal de 1852 e Eduardo Valladares denunciou vontade de não vir ao Porto, pretextando trabalhos escholares, especialmente o de redigir duas dissertações.

É que se não via com a coragem precisa para abeirar-se de sua mãe sem revelar os segredos que lhe corroíam o coração, sem lhe dizer que tudo quanto parecia sujeição voluntaria era sacrificio de victima impotente, e sem lhe attribular para sempre as horas que á boa senhora corriam remançosas ao lado do marido.

Em meado de dezembro, n’uma quinta-feira que amanhecia radiosa como para descoalhar as neves que alvejavam nas agulhas das serranias, especialmente no Gerez, Eduardo Valladares deixou-se ir, de rua em rua, absorto nos pensamentos que lhe preoccupavam o espirito.

Ao desemboccar no Campo de Sant’anna, sahiu-lhe ao encontro um seminarista seu condiscipulo, um tal Mendonça, natural de Guimarães, talento contubernal de homens devassos nos alcouces bracharenses, brigão de emboscadas nocturnas, que seguia a carreira ecclesiastica para acobertar com a batina as ulceras d’uma alma devastada pelo vicio.

A approximação d’este sujeito façanhoso, que apregoava, chanceando-se, as repugnantes aventuras de sua chronica, entediava sobremodo Eduardo Valladares, o qual pensava, ao vêl-o, na maneira por que a sociedade costuma encarar o padre que sacrifica a propria felicidade aos pés de Deus, e o padre cujos dedos empeçonhados da lepra do crime devem macular a alvura do amicto.