—Não me molesta, antes me consola o assumpto, respondeu Frei Domingos. É sempre doce para o coração d’um filho ouvir falar da casa paterna; e tanto eu quero ainda áquelle tecto, que me fiquei por aqui para o estar namorando a toda a hora...
—Perseguirem os frades! regougou João Nicolau. Que mal lhes faziam? Não houve delicto de que os não accusassem!...
—Não sejamos tão severos, não sejamos. Nos conventos, como em todas as sociedades, havia trigo e joio.
—Isso assim é, acudiu João Nicolau. Lá diz o que escreveu Os frades julgados no tribunal da razão[8], curioso livrinho que tenho alli, lá diz elle: «A primeira familia do mundo teve um Caim».
—Bem disse o auctor e com verdade falou. No convento havia homens e por tal razão idéas e sentimentos diversos. Mas entre tantas cabeças e tantos corações alguma cabeça haveria que pensasse reflectidamente, algum coração haveria propenso ao bem e ao justo. A obra d’esse varão aproveitaria ao mundo. Muito melhor o diz o livro sagrado: «Pequena é a abelha entre os animaes volateis, e com tudo isso logra o seu fructo a primazia da doçura»[9].
D. Maria d’Assumpção escutava enlevada e ao mesmo tempo compadecida das angustias do frade.
—Tudo quanto havia de bom, fora e dentro dos conventos, tudo a guerra nos levou, ponderou João Nicolau. Perderam-se vidas, correram rios de sangue, consumiu-se, matou-se, espoliou-se... As consequencias fôram tristes como os factos.
—Sou extranho a tudo o que respeita a politica; no convento desconheci-a sempre; fora do convento egualmente a desconheço.
—Ler a historia da guerra civil, disse João Nicolau, é doloroso; feliz quem se puder forrar a semelhante leitura.
—D’essa historia, respondeu Frei Domingos, sei apenas que o sr. D. Pedro era um principe portuguez, que já morreu e que o sr. D. Miguel, seu irmão, é outro principe que vive em terra extranha.