—Pobre e saudoso, elle, o sr. rei, o rei legitimo, como provou José Agostinho, como provou Frei Matheus da Assumpção, e como provaram tantos outros!
—Pobre e saudoso se me afigura que deve viver. Mas, exclamou Frei Domingos com ar prazenteiro, fechemos as chronicas nacionaes que estão ainda a rever sangue. É tempo de expor o motivo que me levou a entrar na casa desconhecida...
—Muito prazer nos deu a sua visita, sr. Frei Domingos, apostrophou D. Maria d’Assumpção.
—Não sabe quanto me apraz relacionarmo-nos! accrescentou João Nicolau. Espero que continuará a dar-nos o gosto de o vermos e ouvirmos. E depois tenho cá um meu neto que anda no Seminario e que precisa de pedir sombra a boa arvore. O sr. Frei Domingos sei eu que não se recusa a uma obra piedosa.
—Nada sou e nada valho. Se não é molesta a minha presença, virei. Não ha melhor asylo do que o aposento do varão honesto e honrado. Ah! mas reatando a conversa... Costumam alguns corações piedosos encarregar-me, n’esta grandissima festa do Nascimento, de distribuir esmolas por pessoas realmente carecidas. Sempre é bom prevenir, e mais sabem tres do que um. Não tem o snr. João Nicolau pessoa de suas relações que se veja em estado d’acceitar a moeda abençoada da caridade?
—Oh! sr. Frei Domingos! A sua lembrança penhora-nos! exclamou D. Maria d’Assumpção. Temos, sim, senhor. A Joaquina, que fez em tempo os recados da nossa casa, está pobre e entrévada ha dois annos e, se lhe não valesse o auxilio da caridade, já teria morrido de doença e miseria.
—É verdade, a Joaquina! bem empregada esmola! confirmou João Nicolau.
—Pois esperemos o Natal, e da colheita repartiremos pela entrevada Joaquina, perorou Frei Domingos, levantando-se para sahir.
Á despedida, João Nicolau e D. Maria d’Assumpção reiteraram instancias que demovessem o frade a prometter nova visita e, quando elle transpunha o limiar, ficaram ambos dizendo:
—Frei Domingos é uma santa alma!