As mesmo tempo ia monologando o carmelita:

Dominus Deus auxiliator meus[10]. Deus me guiará pelo caminho appetecido.


XXII

—Temos passado as férias,—disse D. Maria d’Assumpção a João Nicolau, sem darmos um unico passeio! Eu acho que já estou trôpega. Nada! É preciso aproveitar estes dois dias. Em se abrindo as aulas, começa a gente a cabecear com somno como se a casa fôsse de ermitões. E agora, que são férias, parece que tambem era prohibido falar em passeios para não distrahir o nosso estudante!...

—Ó mulher! tu não tens lembrado... Eu estou por tudo.

—Pois não vês que este rapaz, de genio triste, não pode supportar semelhante viver de velhos?

—Olha que é preciso educal-o para a vida que ha de levar. A vida do bom sacerdote deve ser a vida do descanso e da meditação... Põe os olhos em Frei Domingos...

—Pois quando elle fôr padre, falaremos. Guiemol-o por bom caminho, mas não o opprimamos. A oppressão dá causa, por via de regra, á reacção.

—Reagir, elle! Não se reage contra as proprias inclinações. Em tempo pareceu-me que era avesso á carreira ecclesiastica. Hoje estou completamente convencido de que sonha com as glorias do pulpito e com o renome conquistado pelas suas homilias futuras. É que o chama para alli o coração, e esta coincidencia de encontrar o animo do Eduardo affeiçoado á minha vontade, só a Deus a posso agradecer. Por isso, para satisfazer aos deveres que me aconselha a consciencia, é que já lhe comprei outro dia os sermões do Padre Antonio Vieira...